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As mariposas também amam

Por Carlito Peixoto Lima

    Nos anos dourados, geração bossa nova, o jovem se envolvia em diversos relacionamentos amorosos. Primeiramente o romântico, quase platônico namoro de mãos dadas passeando na calçada, virgindade (da moça) preservada, só ultrapassava o permitido depois do noivado. Moças casadoiras, namoro até 10 da noite, apenas beijos e abraços excitantes.
Depois do amasso com a namoradinha, normalmente o jovem frequentava os cabarés para o descarrego, extravasar seus instintos com as raparigas. Cada qual tinha sua preferência, sua namorada, seu xodó na zona.
Bem diferente da juventude de hoje, quando a virgindade e a hipocrisia foram banidas, jovens namorados transam sem remorso, sem pecado.
Pelos motivos sociológicos e preconceituosos, a mocidade antiga visitava os cabarés constantemente, nem que fosse para beber uma cerveja ou dançar no bordel com as mariposas do amor.
No bairro boêmio de Jaraguá existiam três classes de profissionais, de acordo com o local de trabalho. Nos belos casarões da Rua Sá e Albuquerque ficavam hospedadas as mais procuradas, jovens prostitutas, muitas importadas da Bahia, Pernambuco, outras vindas do sertão alagoano, da zona da mata, aonde o êxodo rural enxotava a população por falta de uma política de fixação no campo.
As moças chegavam à capital cheias de ilusão. Se não conseguissem vaga de empregada doméstica nas casas de família, terminavam nos cabarés. Ao tornarem-se mais velhas, mais usadas, se transferiam para a ZBM, Zona do Baixo Meretrício, o Duque de Caxias e o Verde, nas imediações da Federação da Agricultura. Quando se tornavam cansadas de guerra e de cruzes, findavam no Sovaco do Urubu, última degradação da prostituição, perto do Centro de Convenções. Dali a maioria das mariposas do amor, como chamava o poeta, acabava no cemitério.
Muitas histórias se perderam nas noitadas dos cabarés de Jaraguá. Gente famosa, deputados, senadores, coronéis, capitães, boêmios, escritores, subiram as íngremes escadas daqueles casarões em busca de aventuras amorosas. Naquela época rapariga tinha namorado, muitas vezes se apaixonava, como também alguns homens tiveram grande paixão por prostitutas bonitas, como Fatinha Baiana, passou muito tempo faturando sua beleza, deixou homens empolgados, apaixonados.
Certa noite na Boate Tabaris apareceu Pedrão, um marinheiro, ficou encantado com Djanira, morena dos olhos verdes da região de Porto Calvo, produto da miscigenação da colonização holandesa. O marinheiro gaúcho se apaixonou pela meiguice, o carinho, a ternura e a beleza da alagoana. Prometeu tudo para ficar só com ele. Entretanto, Djanira era a mais disputada entre os clientes da pensão. Pedro se mordia de ciúme quando sua amada entrava no quarto com outro homem. O navio estava esperando atracação para carregar açúcar. Pedro, o marinheiro, ficou oito dias em Maceió, curtindo sua paixão. Djanira se sentiu amada realmente pela primeira vez na vida, também se apaixonou. Na despedida Pedrão prometeu voltar, Djanira acompanhou o navio cargueiro se afastar do cais levando seu amor, sua vida. As amigas bem diziam que rapariga não pode, não deve se enrabichar. Toda manhã ela descia à praia, contemplando o mar que levou Pedro, na esperança que um dia ele devolvesse seu grande amor.
O tempo passou, a paixão de Djanira nunca. Certa noite ela dançava com um jovem tenente na Boate Tabaris, de repente não acreditou no que via. Pedro, alto, musculoso, vestido com camisa listrada, chapéu panamá na cabeça, em pé à sua frente, um sorriso enorme de felicidade. Djanira afastou o jovem tenente, correu feito uma louca, abraçou-se com Pedro. Os dois choraram, se beijaram, se acarinhavam, olhando nos olhos. A paixão foi maior, o amor venceu. No quarto, mais sossegado, Pedro contou sua decisão, abandonou a marinha mercante, retornou à Maceió para tirar seu grande amor do cabaré. Tinha uma meta na vida, casar, trabalhar, viver a paixão, viver Djanira, sua mulher inesquecível.
Hoje, casal maduro, três filhos e dois netos, vive no bairro do Vergel do Lago. Desde aquela época Pedrão trabalha dirigindo caminhão. Sustenta a família com o suor de suas viagens. A sina de Djanira é a ânsia da espera, das viagens, compensando o retorno com carinho e amor. Tiveram cuidado, discrição e até orgulho ao contar aos filhos a origem de sua história, uma bela história de amor.

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