;

NOTÍCIAS

In:

Lendo & Comentando

Por Laurentino Veiga

Orlando Tejo traz à tona a vida/obra de Zé Limeira, Poeta do Absurdo que encantou a velha Paraíba de Zé Américo.E, portanto, vê-se que o autor foi muito feliz traçando a trajetória daquele vate que abrilhantou a cantoria.Não se pode negar que os cantadores são os reais poetas do Nordeste que enfeitam as festas do hinterland. E, sendo assim, é bom registrar o que escrevera José Sarney.

“A cantoria nasce, não pode ser feita. É uma lamparina, é um terreiro, é um barracão, é uma noite, são duas violas, são quatro repentes. Começa e cresce, vai e vem, morre e ressuscita. A lua desaparece. Na madrugada o dia nasce, As moças fogem, a viola cala, mas, no ar, a lenda vai começar.

E são repetidos galopes, quadrões, choradeiras como foram e como não foram e de verdades viram lendas, e de lendas viram verdades e correm pelo sertão.Esse Zé Limeira, o poeta do absurdo, foi um demônio que possuiu o talento e a alma de Orlando Tejo, que em vez de refletir o espírito de Zé Limeira é o Zé Limeira que, na morte, recebe a alma viva de Orlando Tejo”.

Zé Limeira é um poeta diferente. Irreverente/pornográfico dentro dos ambientes que frequentava a convite dos donos das casas que os recebiam de braços abertos.A beleza de seus motes, de seus versos encantavam a todos. “ Sou um cantador malhó/ Que a Paraíba criou-lo.Eu me chamo Zé Limeira,/Cantor de Sabedoria./ Não tem homem cuma eu./Sou o vátis das glórias desta terra”.

Por outro lado, versejava como ninguém.”Eu sou um homem de fé/Mais só conheço a mué/ Olhando a parte de baixo”.” Mué só presta arpejada,/ Porém só presta bem feme,/Do jeito que foi Noeme/ Cum cinco mês casada”.” Só gosto de duas coisas: /Vida boa e mué feme,/Ainda o ano passado/Fui pai dum casá de geme”.De repente, sai com esse imprevisto: “ Fui casado e bem casado,/Cum quem , nem digo cum quem./ A mué ainda viva,/ Mas morreu, mora no Além, / Se um dia vortá à terra, / Vai morá no pé de serra,/Não casa mais cum ninguém”.

Certa vez, encontrava-se numa cidade onde cantava à população.Aí, um cidadão chegou pra ele e lhe disse: “essa moça bonita tá olhando pra você. Tire um glosa elogiando-a”.Assim,dissertou um lirismo nunca visto: “ No dia que me zangá/ Mato você de carinho”.

Paraíba, celeiro de poetas, de cantadores e, principalmente, de escritores da estirpe de José Américo/ José Lins do Rego que inventou o romance regional.” Riacho Doce”/ Pedra Bonita’/ Pureza/ Água-Mãe/ Fogo Morto/Usina/ Cangaceiros que abrilhantaram a literatura nacional.

Segundo Virgínius da gama e Melo, “ Entre poesia erudita, e poesia popular, ciência e aprendizado do povo, transita este admirável Orlando Tejo, homem do povo, poeta do povo, que se dedicou agora a trazer para o convívio de todos, neste consagrado livro, o poeta Zé Limeira, uma figura que se equipara, em muitas de suas visões fantásticas, a um Sousandrade bronco ou um corpo-Santo rude.Haveria um triângulo de inspiração entre Maranhão, Rio Grande do Sul e Paraíba, uma identidade, semelhança talvez, racionando por absurdo, desde que aqui se trata do “ Poeta do

Absurdo”, objeto da acurada pesquisa a que se prestou o ensaísta Orlando Tejo, para nos legar esta obra impressionante”.Confesso ser um grande admirador dos cantadores de viola. Fui aluno de Antropologia do saudoso Théo Brandão na Ufal. Dele aprendi que cultura pode ser a confecção de um cachimbo de barro. Daí, então, forjei a minha formação acadêmica que a conservo até hoje. VIVA A CANTORIA!

Compartilhe:

Comente no Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *