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23º edição do ‘Mundaú Lagoa Aberta’ homenageia Tia Marcelina na orla lagunar do Vergel do Lago

Por Jamerson Soares

Som de tambores, memórias que ecoavam, diversos tons de azul, amarelo, vermelho. Um som de chocalho, histórias que pareciam dançar na frente de nossos olhos, gritos de ancestrais que lutaram pela sobrevivência. Era a beira da lagoa Mundaú, voz da Tia Marcelina atravessando o espaço, todo o povo das 150 casas de matriz africana que foram destruídas em 1912, estavam no mesmo cortejo, ainda que não visíveis.

E foi em memória à luta e contra a intolerância religiosa, que a beira da lagoa Mundaú recebeu, nesse domingo (2), a 23º edição “Mundaú Lagoa Aberta”, na praça do Monumento ao Milênio, bairro Vergel do Lago, em Maceió. O evento é realizado todo primeiro domingo de cada mês com o objetivo de reunir atrações culturais e históricas da cidade, especialmente grupos da periferia e comunidade. Esta edição foi especial pois foi realizada em memória aos 108 anos da Quebra de Xangô, comemoração ao dia de Iemanjá e o início do mês do carnaval.

A produtora cultural, Keka Rabelo, afirma que estar homenageando Tia Marcelina, uma Mãe de Santo que foi espancada pelas milícias alagoanas durante o ataque conhecido por “Quebra de Xangô”, em um cortejo, é, para ela, um fortalecimento, empoderamento e a orgulha.

“Nos faz entender que estamos na região que há militantes no campo da memória cultural. O grito de Xangô, o rezar alto, têm que estar nos quatro cantos do estado. Quanto mais registro da cultura, que foi omitida, apagada e burlada, tivermos, mais legítimo vai ser nosso papel histórico social”, declarou Rabelo.

O evento começou às 14h30, com uma caminhada da Associação dos Pescadores até o Monumento ao Milênio. O cortejo teve participação do grupo Maracatu Raízes da Tradição, coordenado por Mãe Vera, e do coletivo Afoxé Ofá Omin, liderado por Mãe Jeane Iara. Um palco montado já estava esperando o público, que ficou distribuído livremente em cada parte do local. A produção do evento contou que cerca de 300 pessoas transitaram pelo evento e prestigiaram, mesmo que de longe, as apresentações culturais.

Luziene Martins, de 66 anos, cata sururu, mora na região desde criança, às vezes ajuda em alguma coisa em casa. Ela diz que nunca viu um evento como o Lagoa Aberta, e que se sente bem ao assistir. “Achei muito bonito, maravilhoso. A cena que a gente viu quase agora foi uma coisa linda. Eu me senti muito bem vendo tudo. Acho que esses eventos aqui traz muita coisa boa para o local. Eu nunca vi um evento como esse, é até bom porque junta a comunidade para ver”, disse.

Na ocasião, a equipe do projeto de extensão “Comunicação Comunitária no Movimento das Lagoas”, coordenado pela professora Manuela Callou, estava presente para dar um suporte na comunicação, no registro fotográfico e no auxílio em tudo que diz respeito à divulgação do evento, como também do projeto “Lagoa Aberta”. Houve uma conversa entre os organizadores e os integrantes do projeto de comunicação, a fim de saber um pouco mais sobre a região, a história do bairro e como é a produção do local.

Dia de reflexão

A líder religiosa e coordenadora do grupo de Maracatu, Veranilda da Silva, conhecida por Mãe Vera, foi uma das convidadas especiais para o Lagoa Aberta. Ela é considerada um patrimônio cultural vivo de Alagoas e vem passando as tradições aprendidas de geração em geração. “Representar um grupo de Maracatu é representar a casa, é mostrar um pouco do que fazemos na comunidade, é ter resistência dentro de uma comunidade de povo carente”, disse Mãe Vera.

Os produtores culturais, Keka Rabelo e Rogério Dyaz, são alguns dos organizadores do evento. Ao todo são 30 pessoas envolvidas como projeto. Rabelo iniciou as atividades com uma fala introdutória e de força. Os batuques e a alegria ficaram por conta dos grupos “Maracatu Raízes da Tradição”, “Afoxé Ofá Omin”, grupo “Erê”, companhia de teatro “VersArtes”, com seu espetáculo ‘Geni – Não recomendada’, e com seus metais o grupo “Gafieira Cai Dentro”.

“1912 nunca acaba e nunca vai acabar”. Foi assim que Mãe Vera começou sua fala no palco, exaltando a luta e a resistência dos povos que sofreram no episódio mais violento da história religiosa do Brasil.

A realização do Mundaú Lagoa Aberta é do Movimento dos Povos das Lagoas, que surgiu com líderes e ativistas culturais do entorno da lagoa Mundaú e hoje é uma frente composta por mais de 100 entidades integrantes e parceiras com atuação na região lagunar do estado de Alagoas. O patrocínio ficou por conta do Ministério da Cidadania/FMAC, incentivo cultural da SEMED, articulação regional do Instituto Quintal Cultural, articulação institucional do Instituto para o Desenvolvimento das Alagoas – IDEAL, e produção e comunicação Keka Rabelo.

O evento atraiu muitos olhares da vizinhança, que ouviu de longe o som do atabaque ecoar. A organização do evento diz que as atividades deste dia simbólico não é uma comemoração, é uma espécie de reflexão sobre o que aconteceu ao povo negro pertencente à religião de matriz africana, em Maceió.

“É uma celebração porque estamos ensinando às crianças e aos jovens que esse dia tem que ser celebrado, não é de comemoração, é um dia de reflexão. As coisas estão tão extensas na área política, que tudo pode acontecer, que a gente ensina a eles que isso não pode acabar. Venha quem vier para o governo, sempre tem que ter um para lutar pelo povo negro”, declarou Mãe Jeane Iara, ao ser questionada sobre o dia de resistência.

Silenciamentos à força

Há um histórico de preconceito e intolerância religiosa em Maceió, desde os antigos governantes dos anos 1912, época em que houve a violenta e ainda desconhecida Queda de Xangô: um ataque contra os religiosos de matriz africana por paramilitares coordenados e ordenados pelo então vice-governador da oposição, Fernandes Lima. As milícias se integraram à Liga dos Republicanos Combatentes, o qual Lima foi criador.

Segundo uma matéria feita por Carlos Madeiro, correspondente da Uol Notícias em Maceió, as milícias foram responsáveis pelo ataque de 150 casas e terreiros de Umbanda e Candomblé na capital alagoana.

Durante o ataque, uma mãe de santo, chamada Tia Marcelina, foi espancada. Poucos dias depois do ataque, Tia Marcelina morreu. Ela é lembrada até os dias de hoje como um símbolo histórico de resistência.

A avenida que é conhecida por ter muitas quadras de exercício, o memorial ao milênio e a Federação dos Pescadores, além de outros espaços, podem ser frequentados. Ao caminhar um pouco, é visível que a região parece uma fotografia desbotada da orla de Ponta Verde, um espaço desvalorizado, diferente daquela que é bem vista pelos turistas.

Há uma inversão de valores, pois décadas antes a praia da Avenida era bem frequentada, a beira da lagoa Mundaú também, mas com o passar dos governantes e com o esquecimento, o fluxo de pessoas passou para a orla de Ponta Verde. A supervalorização por parte das autoridades e pessoas com boas condições financeiras, também. 

A região que ainda produz

De acordo com Dyaz, no local acontece uma cadeia produtiva de peixes, maçunim, sururu, sendo uma das partes que produz economia na cidade. O produtor cultural e artístico ainda explica que a ideia foi produzir um projeto regional, ou seja, um projeto que não só abrigasse Vergel do Lago, Bom Parto ou Ponta Grossa, mas sim, a orla lagunar como um todo. Ele questionou também o livre acesso e a valorização da orla de Ponta Verde pelos governantes, como também pelos alagoanos. O objetivo do projeto “Lagoa Aberta” é trazer mais para perto da lagoa toda a comunidade da região.

“Aqui há uma memória territorial; porque não temos um passeio aqui para conhecer a história dessa região? Ao nos organizarmos para criar o projeto, detectamos nesta localidade que há pessoas com muitas atividades: gente que faz indumentária do Boi, a costureira, a marisqueira, tem a igreja São Bento, bares, praças, quadras, lugares que podem ser frequentados”, declarou Dyaz.

“A gente tem tudo aqui estruturado para um local de produção de negócio, cultura, de eventos. Escolhemos isso aqui e a gente quer que isso seja um modelo de orla. Todos têm bons projetos, mas não tem pra onde ir porque não tem projeto regional. Quando a gente se reuniu para o projeto [“Lagoa Aberta”], a gente entendeu que precisávamos de um projeto de desenvolvimento regional da lagoa. Se não tem projeto regional, não tem um futuro”, concluiu.

Segundo os organizadores, a região da lagoa sofre uma espécie de apartheid, uma segregação racial e geográfica que impossibilita o desenvolvimento do local. Existe até um “micro-apartheid”, pois moradores da parte da pista não frequentam a parte da lagoa, acham perigoso ou não tão atraente, o que não favorece quem mora perto da lagoa.

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