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O sutil veneno de Luis Buñuel

Tido como pai do surrealismo no cinema, Luis Buñuel (1900-1983) é muito mais do que isso. Aos 120 anos do nascimento do mestre espanhol, nascido em 22 de fevereiro, o Petra Belas Artes começa hoje uma mostra com oito dos seus filmes. A panorâmica inclui do primeiro (e polêmico) Um Cão Andaluz (1929) ao último dos seus filmes, Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977).

Um Cão Andaluz, com roteiro em parceria com Salvador Dalí, é fundamental no entendimento da poética de Buñuel. Ao escrever o roteiro, os dois tinham a preocupação de descartar qualquer imagem que pudesse produzir sentido imediato. A ideia era buscar, pelo choque de imagens inusitadas, acesso direto ao inconsciente do espectador, àquela região mental que rege as pulsões, indiferentes à lógica consciente ou à moral burguesa. O filme estreou sob vaias e provocou escândalo em Paris, onde então moravam os dois autores.

Depois da primeira fase francesa, na qual conviveu com André Breton e outros papas do surrealismo, Buñuel mudou-se para o México. Lá rodou uma série de filmes comerciais, alguns deles muito interessantes. Respeitava a fórmula do melodrama, porém “contrabandeava” elementos surrealistas que punham as obras em outro patamar, tirando-as da rotina.

Lá mesmo, no México, filma Os Esquecidos (1950), uma de suas obras-primas e raro exemplar de realismo crítico. Os personagens são meninos de rua da Cidade do México, retratados de maneira crua e sem qualquer laivo de piedade cristã (o universo ético de Buñuel era de outra ordem).

Também da fase mexicana é O Anjo Exterminador (1962), um dos exemplares típicos da estética buñuelesca. O filme gera interpretações divergentes até hoje. Em cena, um grupo de grã-finos, reunidos para uma festa. Por algum estranho motivo, não conseguem deixar o recinto e experimentam a convivência forçada. Cômico e angustiante ao mesmo tempo, descasca a fina película de civilidade que oculta instintos primitivos. Voltaria mais tarde ao tema.

Na Espanha, Buñuel realiza aquele que talvez seja seu maior filme – Viridiana (1963). A protagonista (Silvia Pinal) sai do convento para visitar um tio moribundo. Depois que este tenta seduzi-la, e morre em seguida, Viridiana decide não voltar ao convento. Fica na casa e a transforma em abrigo de mendigos. A paródia da Santa Ceia é um dos pontos altos dessa visão ácida da religião e crítica à hipocrisia da caridade cristã. Há um dado interessante. O desfecho foi vetado pela censura de Franco e Buñuel o reescreveu de maneira mais alusiva. Sempre que se referia ao filme, agradecia à censura espanhola por ter lhe proporcionado um final melhor. A ironia é também um dom surreal.

De volta à França, e sempre apostando no caráter estimulante da estranheza, Buñuel faz um dos seus filmes mais conhecidos e discutidos. A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967) traz a deslumbrante Catherine Deneuve como a burguesa casada que se prostitui em determinadas tardes parisienses. Vida real, mundo de fantasia, impulsos sexuais imperativos – tudo está aí, neste filme baseado em romance de Joseph Kessel.

Todo o resto da carreira de Buñuel transcorreu na França. Em 1972 lança O Discreto Charme da Burguesia. Um grupo de alta sociedade se reúne com frequência, mas nunca consegue terminar suas refeições. Também as relações sexuais jamais chegam ao fim, enquanto grupos terroristas atormentam os personagens. Cômico e brilhante.

Em O Fantasma da Liberdade (1974), com roteiro escrito por Jean-Claude Carrière, uma série de esquetes com valor de nonsense põe em ridículo os valores da família, da religião e da pátria. (Imaginem Buñuel no Brasil atual.)

Sua obra final, baseada em livro de Pierre Louys, é magnífica. Esse Obscuro Objeto do Desejo fala da obsessão de um idoso (Fernando Rey) por uma encantadora jovem, que jamais cede aos seus desejos. O detalhe genial é a moça ser interpretada por duas atrizes, Carole Bouquet e Angela Molina, com temperamentos muito diferentes e mesmo poder de sedução.

O caráter anárquico e incontrolável do desejo humano aparece no primeiro e no último filme de Buñuel. Permeia toda sua filmografia, mesmo nos títulos em aparência mais inocentes. O velho bruxo deposita suas gotas de veneno onde menos se espera. Buñuel foi simplesmente um dos maiores cineastas de todos os tempos. Radical, político e irônico, é antídoto certeiro para a caretice moral que tenta se impor em nosso triste tempo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Autor: Luiz Zanin Oricchio
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