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Os doces de minha infância

Por Carlito Lima

A arte culinária é peculiar, tem características próprias de cada artista da gastronomia; é uma cultura forte e típica. Nessa cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, Maceió, as comidas estão entre os melhores prazeres. Saborear um bom prato faz parte de nosso lazer, de nossa cultura. Lembrando que o Bispo Don Pero Fernandes Sardinha foi devidamente devorado em apreciado banquete antropofágico pelos nossos ancestrais, os índios caetés nas areias brancas da praia de Barra de São Miguel.            

Minha juventude foi marcada por doces e salgados inesquecíveis. Ainda tenho em minha mente, em meu paladar, alguns pratos feitos em casa por minha mãe, Dona Zeca, excelente cozinheira. Ela caprichava nos almoços dominicais: caruru, galinha ao molho pardo, carapeba, cavala, arabaiana ao olho de camarão ou feijoada de feijão mulatinho incrementada com charque, toucinho, tripa de porco, linguiça, carne do sol, couve, jerimum, quiabo, maxixe. 

Havia pratos, hoje preparados em óleo vegetal, na época cozidos com banha de porco: o sarapatel, o fígado e o bife de panela. Sem esquecer o cozido, as macarronadas, peixadas e camarãozadas de todo tipo.

Quando íamos ao centro da cidade invariavelmente lanchávamos na sorveteria da moda, Bar e Sorveteria Elegante, em frente ao Beco do Moeda, frequentado pela classe média emergente que sentava às mesas de ferro com tampo de mármore. No cardápio de lanches havia sorvetes de frutas regionais: mangaba, manga, pinha, laranja cravo, sapoti, mamão, abacaxi, melancia, coco, cana, além de pudins maravilhosos; tudo servido em taças de metal niquelado.

Ainda no centro da cidade eu adorava o chocolate caseiro em barras, duas cores, vendido pelo Seu Portela na loja especializada em óculos que vendia mais chocolate que óculos. 

Não esquecendo a Sorveteria Xangai de Seu Fon na Rua da Alegria oferecendo o deliciosíssimo sorvete de chocolate crocante e sorvete de creme.

Ainda sinto o gosto e o cheiro das doces de minha infância, ficaram para sempre entranhados nas narinas e glândulas do paladar.

Acrescento à lista, os ambulantes que passavam na praia da Avenida da Paz. Depois do almoço ficávamos à espera de Seu Primitivo empurrando o carrinho de sorvete. Sempre dois sabores: coco e maracujá, coco e mangaba, coco e cajá, coco e goiaba; ele raspava o sorvete com uma colher enchendo o carlito (casquinha). Era nossa predileta sobremesa.

Ao entardecer, o China aboletava o tabuleiro de quebra-queixo embaixo de alguma amendoeira na Avenida da Paz, tínhamos guardados os tostões contados especialmente para uma “taíada” desse doce precioso; encantávamos com a rapidez do corte vertical, um pouco inclinado, ele entregava o quebra-queixo em pedaço de papel colorido, era cocada dura queimada com pedaços de amendoim.

A moçada se deliciava com o algodão doce, rodado na hora numa panela com fogo, esquentava o açúcar fazendo enorme nuvem de algodão. Complementava tomando um raspadinho: gelo raspado dentro de um copo cheio de garapa de coco, maçã ou misto, uma delícia. E o caldo de cana, caiana! Uma divindade.

Na praia defronte ao coreto havia um futebol organizado. Depois do banho-de-mar, os jovens iniciavam papos e paqueras sentados na areia. Invariavelmente aparecia o Gaguinho empurrando o carrinho de sorvete XAXADO, uma delícia feita de frutas nordestinas. Gaguinho parava na roda oferecendo seu delicioso sorvete e picolé: “Quem vão quererem? Quem vão quererem? Podem pedirem!”

Ele vendia fiado, na hora do almoço passava na casa de cada um com a conta do sorvete consumido; ele conhecia todos, meninos e meninas da Avenida. 

As tardes da Rua do Comércio eram imperdíveis, jovens encostados nos automóveis (limpando carro) curtiam as meninas, flertando, paquerando, marcando encontro nas Sorveterias DK-1 ou Gut-Gut, onde tomávamos saborosos sorvetes de frutas de todas as qualidades; era o ponto de encontro favorito da moçada bonita.

Quando o Comércio estava perto de fechar, eu descia rumo à minha casa com uma parada obrigatória na esquina do trilho de ferro, ao lado do Arcebispado, saboreava um suco maracujá com pão doce. Nunca ninguém no mundo até hoje conseguiu fazer um suco igual àquele, o sumo da divindade. Os deuses da gula em vez de água devem beber aquele maracujá.

É preciso um estudo mais profundo sobre comidas, salgados e doces dos anos dourados. Fazem parte de nossa história, de nossa cultura. 

A modernidade acabou com os doces de minha infância, hoje proliferam no mundo as lanchonetes dos Shoppings esquentando sanduíches congelados com gosto de sola de sapato. Estão espalhadas no mundo as sofisticadas fábricas de obesidade inventadas pelos americanos. Saudades dos doces de minha infância.

   

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