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Coronavírus, rezas, charlatães, capitão, um médico

Por Léo Rosa de Andrade

Pensei, formei convicção e cultivo militância contra a (i)lógica religiosa e pensamentos mágicos (efeitos sem causa objetiva) em geral. Por quê? Bem, as diversas ideologias religiosas retiram a responsabilidade pela história dos atos humanos. Essas “posições” simplificam as relações sociais e “autorizam” a permanência de um injusto estado geral dos acontecimentos do mundo.

Assim tem sido por quase dois milênios (conto a partir de Constantino, imperador romano, editor da Bíblia, 13º apóstolo da igreja católica). Pense nas consequências de as autoridades cristãs, titulares do poder e do fausto no Ocidente, convencendo os excluídos de que “felizes de vocês, os pobres, porque o reino de deus lhes pertence” (Lucas, Bíblia).

Esperança, uma palavra perigosa, animadora da eterna “transferência” da justa partilha das coisas. Mas, “quem espera sempre alcança”, então, “espera tu pelo senhor; anima-te, e fortalece o teu coração” (Salmos, Bíblia). Já, já, logo depois de falecida, a pessoa vivente da Morte e Vida Severina receberá a “parte que lhe cabe deste latifúndio”.

Outro problema a enfrentar é o do ignorante ativo. Seja, o sujeito “em estado de quem não tem conhecimento, cultura, por falta de estudo, experiência ou prática” (Houaiss) com poder de fala para produzir, alastrar e sustentar narrativas simplistas da complexidade social que vivemos. Esse tipo faz estragos sobretudo nas redes sociais, onde não falta sabedoria, porém, a ignorância prevalece.

De que falo? De rezas e de remédios impróprios para a peste que nos assola, nos assusta, nos mata. De religiosos em oração e de ignorantes ativos em defesa de tratamento precoce com drogas inadequadas ao mal que nos importuna tanto (um vírus). Crendice e charlatanismo, por sobre os danos do coronavírus em si, têm causado uma mortandade irresponsável no Brasil.

“‘O Brasil é o exemplo de tudo que podia dar errado numa pandemia. Temos um país com uma liderança que, além de não implementar medidas de controle, minou as medidas que tínhamos, como distanciamento social, uso de máscaras e, por um bom tempo, também as vacinas. Viramos uma ameaça global’. Essa é a opinião de Denise Garrett, infectologista, ex-integrante do Centro de Controle de Doenças do Departamento de Saúde dos EUA e atual vice-presidente do Sabin Vaccine Institute” (BBC Brasil, Luís Barrucho, 22mar21, https://bityli.com/Vm9Az).

Quando expresso estes pensamentos, se me imputam esquerdismo. Nada. Sigo a orientação do governo alemão. Por não confiar nas orientações do atual governo brasileiro, tomei minhas decisões sobre o adequado e o indevido diante do coronavírus considerando a posição de Angela Merkel. Ela é unanimidade alemã (18 anos de liderança), europeia e mundial. Ela é físico-química. Ela é doutora. Ela é de direita (não considerei sua posição ideológica, mas sua grandeza política e sua formação acadêmica).

Para o interesse público, observando o que alguns governantes recomendam e certos médicos receitam, não seria de sopesar melhor as coisas? “A farmacêutica norte-americana MSD (Merck Sharp and Dohme), fabricante da ivermectina, afirmou que ainda não há evidências de que o medicamento traga benefícios ou seja eficaz no tratamento. Em comunicado, a empresa disse que não há base científica que indique efeitos terapêuticos contra a Covid-19 nos estudos pré-clínicos já publicados” (VivaBemUol, 05fev21, editado, https://bityli.com/bo04j).

“Estudo publicado na revista científica britânica Nature concluiu que o uso da hidroxicloroquina em tratamento de pacientes com Covid-19 está associado a uma mortalidade maior e, no caso da cloroquina, não há eficácia. A pesquisa, assinada por 94 cientistas, analisou colaborativamente 28 ensaios clínicos publicados ou não, nos quais participaram 10.319 pacientes. Os pesquisadores concluíram ainda haver maior risco no uso da hidroxicloroquina em promover mais tempo de hospitalização e de favorecer a progressão do paciente para ventilação mecânica invasiva” (Louise Queiroga (Lou Marins), O Globo, 16abr21, editado, https://bityli.com/Cqp2e).

Confirmando a conclusão, “as notificações (feitas por pacientes, empresas e profissionais de saúde de todo o país) por efeitos adversos decorrentes do uso de medicamentos do ‘kit Covid’ como cloroquina e hidroxicloroquina em 2020 dispararam na comparação com o ano anterior. No caso da cloroquina […], o aumento nas notificações por efeitos adversos foi de 558%” (@Leandro Prazeres; Paula Ferreira, O Globo, 05abr21, editado, https://bityli.com/HTfbg).

Cura milagrosa nas igrejas; tratamento “precoce” por charlatães; orientações de um capitão do Exército. Desconsidero milagres, kits e capitão. Tenho uma única esperança: espero o melhor do melhor da humanidade. Transcrevo considerações de um dos melhores médicos de um dos melhores hospitais, referência internacional no ensino de Medicina: “É algo muito interessante em como, apesar de estarmos na era da informação, sabemos tão pouco sobre a fisiopatologia da Covid-19. E muito do que sabemos aprendemos por estarmos vivendo isso em nosso dia a dia, no face a face com o paciente.

Uma apresentação extremamente incomum de Covid em criança, que precisou de internação por uma evolução grave e se tornou um dos pacientes mais jovens acometidos internados no Hospital Albert Einstein. E o que salvou esse paciente e deu a chance de hoje ele estar tendo alta? Foi a ciência!

A ciência nos ensinou o momento correto para fazer uso de corticoide. A ciência orientou a hora certa de iniciar anticoagulante. A ciência mostrou a necessidade e o instante preciso de entrar com antibióticos. A ciência guiou os protocolos seguidos pelas ótimas equipes de enfermagem e fisioterapia do hospital.

A ciência é a maior responsável por esse paciente estar de volta em casa. Não existem métodos mágicos no tratamento do Covid. Existem evidências científicas. Evidências científicas não são questão de opinião. Agradeço aos pais da criança que, apesar de todos os momentos críticos, sempre acreditaram na minha competência e, acima de tudo, acreditaram na ciência” (Carlos Levischi, Facebook, 04jun21).

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