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Com sobrenome de peso, Thiago Moura estreia em Tóquio sob olhar do pai

“Paiêê, como vai ser o treino hoje?” A voz grave se esparrama pelo vestiário ao lado da pista de atletismo do estádio da Ponte Grande, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Quem grita é o atleta Thiago Moura, de 26 anos, que vai fazer sua estreia nos Jogos de Olímpicos de Tóquio nesta quinta-feira no salto em altura. Sua primeira aventura olímpica começa às 21h15. Quem ouve o berro é Neilton Moura, ex-atleta, treinador respeitado no atletismo do País e que vai para sua quarta Olimpíada. Essa experiência, no entanto, será única para os dois: é a primeira vez que o pai treinador e o filho atleta estarão juntos na disputa por uma medalha olímpica no atletismo.

O Estadão acompanhou o diálogo dos dois no último treino antes da viagem para Tóquio. Só dá para perceber que são pai e filho nessa hora, do “paiêê”. Não há abraço em público nem chamego. Neilton diz com segurança que ninguém percebe que são pai e filho. No começo da parceria, dez anos atrás, Thiago estranhou a cobrança e a braveza. Hoje, já se acostumou.

Thiago até que merecia um cafuné. A conquista da vaga olímpica encerrou um período penoso de preparação. Dois anos sem férias. Thiago colocou na cabeça que ia para Tóquio. E está lá. Ele começou a temporada saltando 2,19m, passou a 2,22m e acabou com 2,27 m, marca que valeu a conquista do Troféu Brasil. O principal resultado da carreira veio justamente na temporada de 2021, com a medalha de prata no Campeonato Sul-Americano, disputado no Equador. Nesse ano, já saltou 2,28 metros. Ele conseguiu essa evolução treinando na laje da casa onde mora na região central da cidade. A pandemia fechou os clubes.

Olhando na régua, os cinco centímetros da evolução não são muita coisa, mas vai saltar por cima de um sarrafo, de costas, para ver o drama. É a medida de um sonho. “Como pai, eu me sinto aliviado, e, como treinador, orgulhoso”, afirma Neilton em um dos poucos sorrisos ao longo de mais de uma hora de entrevista ao Estadão.

Para brigar por uma medalha, Thiago ainda tem de evoluir. A marca para chegar à final varia de 2,26 metros a 2,30 metros. Os atletas que vão brigar pelo pódio estão saltando entre 2,37 metros e 2,38 metros com regularidade. “Se ele fizer o melhor, tem chances de ir à final, mas é preciso repetir o melhor resultado em condições que nunca enfrentou”, diz o técnico. “Tenho consciência de que eles (os rivais) estão um pouco acima. Tenho total possibilidade de alcançar a final. E, dentro da final, tudo será possível”, diz Thiago.

Neilton se define como um pai “normal”, não é aquele que pega no pé, mas que sabe que a vida de um atleta profissional não permite grandes estripulias. A pressão maior vem da história familiar. A mãe foi heptatleta e os irmãos trabalham com atletismo. O sobrenome Moura é um dos mais respeitados do atletismo brasileiro. O tio de Thiago, Nélio Moura, foi o técnico da Maurren Maggi, campeã olímpica no salto em distância em 2008, e do panamenho Irving Saladino, também vitorioso na mesma prova no naipe masculino nos Jogos de Pequim-2008.

“Quando eles voltaram dos Jogos, teve toda aquela badalação aqui no Brasil. Alguém no Panamá fez uma música para homenagear o Irving e tem o nome do meu tio nela. Fui entender isso a passos curtos. Não foi fácil”, fala o saltador.

Thiago cresceu dentro de uma pista de atletismo. Antes de ser treinado pelo pai, ele deu os primeiros saltos com Anísio Souza Silva, triplista que esteve nos Jogos de Barcelona-1992 e Atlanta-1996. “É uma tradição que está sendo levada adiante”, diz Anísio.

Mesmo que a relação seja “profissional” nas pistas, existe uma sintonia fina entre os dois. Quando Thiago começa a arrumar o colchão para o salto, Neilton faz um gesto com a mão pedindo para ele não forçar muito. Thiago faz “sim” com a cabeça. O jeito de olhar é diferente, difícil de explicar. Só vendo mesmo. Thiago define o pai como um “cabeça dura de coração mole”. Mas fala isso baixinho, de canto, para ele não ouvir. O pai conta que o filho venceu uma depressão brava anos atrás e se diz realizado. Mas já emenda que ele não vai lá, para o Japão, só para passear.

Os dois juram que dá para separar os papéis de pai e treinador, filho e atleta, mas a gente sabe que é difícil. Isso ficou claro na classificação de Thiago. O pai acompanhou a tabela de pontos dos candidatos por vários meses em casa. Toda semana, ele acrescentava os resultados e via a situação de cada atleta. Por conta da pandemia, as federações nacionais criaram torneios classificatórios fora do calendário oficial da Federação Internacional de Atletismo. Angústia. Expectativa.

Thiago entrou na lista para disputar o salto em altura pelo ranking olímpico não pelo índice. Com 2,28 metros, ele estava entre os 32 primeiros no ranking mundial em 29 de junho, dia do fechamento do prazo para classificação. “Foi demais. Ver, no rosto dele, a emoção e a felicidade é uma coisa espetacular. Deu para dar uma amolecida no coração do velho”, afirmou o atleta. “Paiêêê, a gente vai para a Olimpíada”, disse o filho atleta. Aí teve um longo abraço.

Autor: Gonçalo Junior
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