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Uma ética para o mundo, uma ética no mundo

Por Léo Rosa de Andrade

A ética é compatível com o pensamento religioso? Seja: é possível um religioso agir com ética? Sim e não. Ética comporta duas compreensões: ter individualmente ética significa receber e aceitar (ou ser interpelado ideologicamente por) um conjunto de preceitos valorados e agir de acordo com eles. Nesse sentido, um religioso pode ser ético. Ele pode introjetar os valores do seu grupo e se comportar conforme eles.

Ética, contudo, tem outro significado. Em filosofia, é o estudo dos princípios motivadores e orientadores do comportamento humano. A ética estuda valores, normas, controles morais. Aqui ética não é cumprir obedientemente valores introjetados, mas é estudar criticamente valores.

A filosofia tem na ética uma epistemologia, uma ferramenta de trabalho para estudar princípios motivadores e orientadores do comportamento humano. A ética enquanto disciplina da filosofia não tem compromisso com quaisquer princípios em si. Já a religião tem na ética uma teleologia, um meio de estudo para a promoção de determinados princípios havidos como verdadeiros e definitivos, os quais têm uma finalidade, a “salvação”.

Isso demarca as diferenças entre a eticidade laica e a religiosa. O laico tem na ética um utensílio intelectual de compreender valores, criticá-los, superá-los. O laico pensa os valores como um “combinado” histórico necessário, mas substituível. A ética laica está, pois, em condição “superior” aos princípios valorados.

O religioso tem a ética como ferramenta de aprofundar a crença no que já crê. Para o crente, a ética é “inferior” aos seus princípios religiosos valorados. A ética religiosa não se propõe a qualquer esforço de apreciação lógica ou epistemológica de valores. Para um religioso, preceitos “revelados” não são objeto de investigação crítica.

Essas diferentes posições cognitivas geram diferentes efeitos no mundo. Enquanto o laico tem uma ética no mundo, o religioso tem uma ética para o mundo. A ética filosófica laica indaga o mundo e suspeita de seus valores; a ética religiosa do crente faz predicação, quer impor valores ao mundo.

Os preceitos estabelecidos por um grupo religioso, que deveriam ser apenas mais uma “proposta” para ordenar valorativamente a convivência humana, são, para os membros desse grupo, universais e necessários para a conduta da humanidade. Daí seus choques com os sistemas democráticos, que abrigam valores múltiplos e procuram dar-lhes validade por persuasão.

O laico se explica com a História e com as condições sociais condicionantes do seu tempo, e tenta superá-las. O religioso tem mentalidade fiducial e consolidada. Ele crê em um princípio superior às coisas mundanas e entende que a “causa” do humano é a obediência a esse princípio.

Os princípios da ética filosófica estão propostos nos argumentos, no contraditório, nos embates políticos. A rigor, a ética laica democrática está em lugar nenhum, na medida em que é construída no diário, valorizada no diário, revogada no diário. Os princípios religiosos são prescritivos e estão nas “escrituras”. Isso não seria danoso se cada “sistema” mantivesse no seu âmbito de abrangência as suas concepções.

Ideias, democráticas ou religiosas, se estabelecem se houver poder que as divulgue e sustente. Sem isso, nada feito. Mas, na sua proposta de propagação há uma diferença. As constituições democráticas não dão um comando ao cidadão para que se faça um militante. Já as escrituras das religiões semitas determinam a pregação, o convertimento forçado, ou o extermínio dos “inimigos da fé”.

Muitos insistem que o “erro do religioso” está na radicalidade. É ignorância da História. Os cristãos foram assassinos sistemáticos de incréus durante todo o tempo que conseguiram sê-lo. Jamais se contiveram; foram contidos quando os Iluministas tiveram poder para contê-los. Islâmicos matam por sua divindade. Então se responde: “Não são todos”. Sim, não são e nunca foram todos. Há quem pense fora das bitolas religiosas, mesmo no seio de uma religião.

O busílis não é o sentido individual da ética, mas a sua dimensão crítica das crenças e das ações. O sistema laico responsabiliza os indivíduos por suas escolhas existenciais. Já em monofagia religiosa age-se à parte de uma ética no mundo que indague fé ou ato. O religioso, fora do crivo mundano, com uma ética para o mundo, crê poder tudo o que lhe manda a religião. Religião e poder sempre foi uma combinação perigosa.

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