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Migração para a energia limpa gera dilema ambiental

Desmatamento de grandes áreas na Amazônia. Uso intensivo de água no deserto do Atacama, no Chile. Contaminação do solo e de lençóis freáticos. Desastres como os de Brumadinho e de Mariana. Prejuízos como esses são consequência da mineração, atividade que deve crescer nos próximos anos com o avanço da descarbonização da economia e a substituição dos combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, por fontes de energia renováveis.

Equipamentos usados nas usinas de energia eólica e solar, além dos componentes dos carros elétricos, consomem uma grande quantidade de materiais como o cobre, o lítio e o níquel em sua fabricação, o que eleva a demanda por esses e outros minerais. Segundo pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os prejuízos da mineração ao meio ambiente devem ao menos dobrar até 2060, sobretudo por causa da maior demanda dos materiais.

O relatório da OCDE aponta que o aumento dos danos será maior principalmente na exploração de cobre, zinco, chumbo e níquel. Tanto o cobre quanto o níquel são essenciais para a transformação energética. Os dois metais são também os que apresentam maior impacto ambiental por quilo de produção entre os sete analisados pela OCDE (cobre, níquel, zinco, chumbo, ferro, alumínio e manganês). Valerá a pena, então, trocar a poluição dos combustíveis fósseis pelos impactos ambientais da mineração?

Não é uma questão simples de responder. Uma dúvida, em primeiro lugar, é se o maior impacto ambiental será compensado pela redução dos danos causados pela extração de outros materiais, como petróleo ou carvão. O professor da Universidade de São Paulo (USP) Luis Enrique Sánchez, que trabalha com mineração e meio ambiente, diz que hoje o carvão é o segundo recurso mineral mais extraído e produzido do mundo, perdendo apenas para a areia. São cerca de 8 bilhões de toneladas de carvão por ano. Com a transição energética, os países já têm como meta reduzir o carvão como fonte de energia. O professor explica que não é fácil contabilizar se a diminuição na exploração do carvão compensará os impactos ambientais causados pelo aumento da extração de cobre, níquel e lítio. Tudo dependerá de fatores como a biodiversidade presente nos locais de extração, por exemplo.

Sánchez avalia, porém, que a transição energética é necessária, ainda que ela também tenha consequências ambientais. “Esperamos que essa mudança reduza os gases de efeito estufa, que também têm impactos ecológicos. E caberá às mineradoras fornecer os metais da forma mais limpa e responsável possível.”
O consultor Rodrigo Más, sócio da Bain & Company, destaca que é inviável extrair minérios sem causar impactos na natureza. A pressão da sociedade pela sustentabilidade, no entanto, deve fazer com que as companhias do setor se obriguem a encontrar soluções menos agressivas ao meio ambiente para seguir tendo acesso à capital, segundo ele. “As companhias que conseguirem entregar isso se tornarão mais valiosas”, afirma.

Na visão de Artem Golev, que faz parte do grupo de ecologia industrial e economia circular da Universidade de Queensland e que estudou a atividade mineradora de lítio e cobre no Chile, é preciso considerar como os metais serão empregados. “Estaremos tentando construir uma infraestrutura melhor? Estaremos tentando produzir mais energia renovável? Se for isso, aí é uma forma positiva de investir nesses metais, ainda que existam impactos negativos.”

Dos minerais que tendem a ser mais consumidos por causa da descarbonização da economia, o cobre é um dos que mais preocupam do ponto de vista ambiental. Isso porque apenas 1% do material processado para se extrair o metal é aproveitado. Para se ter ideia, essa parcela varia de 36% a 66% no caso do minério de ferro. Isso implica em grandes escavações para retirar o material e em um volume imenso de rejeitos empilhados.

Um agravante é que, com o crescimento da demanda por metais, será preciso explorar também minas menos eficientes, localizadas em áreas de maior riscos ou que podem gerar um volume ainda maior de rejeitos, diz Stephen Edwards, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). “O volume desses rejeitos vai aumentar. Quando um depósito de rejeitos de mineração é construído, isso não desaparece em 30 ou 40 anos. Fica para sempre. E rejeitos são fontes de catástrofes como a de Mariana e a de Brumadinho.”

Em um intervalo de três anos e três meses, o Brasil assistiu ao rompimento de duas barragens, matando 280 pessoas e deixando nove desaparecidos. Os desastres ainda contaminaram o Rio Doce, levando metais até o Parque Nacional de Abrolhos, na Bahia, e devastaram dezenas de hectares de vegetação nativa da Mata Atlântica. O modelo das barragens de Mariana e Brumadinho foi proibido no Brasil após as tragédias, mas nem todas as unidades foram completamente “desmontadas” até agora.

O vice-presidente de metais básicos da Vale, Mark Travers, afirma que a empresa tem trabalhado para se tornar um modelo de mineradora de baixo impacto ambiental e se comprometeu a zerar as emissões líquidas de carbono até 2050. Hoje, as minas da Vale – por onde circulam caminhões de grande porte – são responsáveis por 15% de todas as emissões do grupo.

Energia e água

Outro problema ambiental do cobre é a demanda por um grande volume de energia no processo de produção. Assim, se a mineradora não usa energia renovável, pode haver também um impacto na emissão de gases.

O Chile, por exemplo, é responsável por 30% da produção global de cobre. Na mina de Escondida – a maior do mundo e localizada no deserto do Atacama -, o diesel era responsável por fornecer 45% da energia necessária em 2016. Esse número não contabiliza a energia gasta para dessalinizar a água – a mineração também depende de um grande volume de água, escassa na região. “A água é o problema número um para a maioria das empresas mineradoras. E o caso Chile é muito extremo, porque as minas estão no deserto”, diz Golev.

Autor: Luciana Dyniewicz. Colaborou Gustavo Lustosa
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