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Um beijo é mais e menos do que beijar

Por Léo Rosa de Andrade

Conforme o Houaiss, beijo: “ato ou efeito de tocar, pressionando, os lábios sobre pessoa, animal ou objeto querido ou com valor simbólico, geralmente para demonstrar carinho, afeto etc”. No Aurélio, beijo: “ato de tocar com os lábios em alguém ou alguma coisa, fazendo leve sucção”.

Não sei se alguém beija desse jeito. Eu é que não. Nunca beijei nem fui beijado desse modo. Amigos e amigas, todos estão de acordo: beijo é muito, mas muito mais do que isso. Beijinho é cumprimento. Mas beijo que se preze é envolvimento afetivo com encomenda de sexo.

Essas definições de beijo dicionarizadas, eu as considero vencidas. Houaiss e Aurélio são de outra época. Definiram beijo corretamente, mas para o conservadorismo moral de seus contemporâneos. Esses conceitos estão anacrônicos; os beijos já não se reconhecem neles.

É comum pessoas que vivem em determinado lugar e tempo tomarem os seus costumes para interpretar todos os lugares e tempos, e gracejam ou desdenham diferenças de comportamento, traje, crenças, narrativas fatos etc. (em regime de historicidade, presenteísmo).

Os dois respeitáveis lexicólogos, estudantes da Cultura, evidentemente, sabiam disso e tomaram as cautelas possíveis, mas é difícil escapar das nossas circunstâncias (distanciamento no lidar com o tempo). Elas nos constituem em todo o nosso pensar e agir em sociedade.

Não aceitamos isso com tranquilidade, embora tudo, exatamente tudo, desde as mais arraigadas crenças religiosas, os mais acreditados valores sociais, os mais íntimos gestos de carinho, tudo não passe de um costume, uma prática passageira, um valor de época.

Depois, para o bem e para o mal, os jeitos de um tempo se vão, e os viventes do futuro, como nós fazemos com o passado, os troçarão, ou transformarão em objeto de estudo sociológico ou antropológico o que cuidamos como se fosse uma prática de eternidade.

Abordando-se a indumentária, fica explícito: divertimo-nos vendo álbuns de família. Mesmo as religiões: o crente mais convicto não pode negar os registros da História: todos os “ismos” são invenção de época e lugar certos. Vingam se um sistema de poder os difunde e mantém.

A intimidade, todavia, se nos parece à parte das ciências sociais. Mas não está. Há uma história de cada gesto, dos usos dos nossos membros, das práticas havidas como apropriadas de e para cada saliência ou buraco do nosso corpo. Os católicos têm um manual da transa imaculada.

Voltemos ao beijo. O beijo sensualizado de que gostamos, em outras épocas inexistia (e talvez suma, pois o reacionarismo assombra a civilização); como tudo o mais na cultura, seja o amor de mãe, seja a autoridade do pai, o beijo é um costume que, espero, não seja passageiro.

Historicizar beijos subtrai-lhes um pouco do seu sentido de paixão. Meigo ou ávido, uma expressão de amor que não deveria nem mesmo ser nomeada. Mas, lamento, é mesmo isso: uma avó não beijava como beija a sua neta. A neta será antiga à vista da neta que virá.

Os afagos do corpo foram, ao que parece, primeiramente sofisticados pelos indianos. Segundo a Wikipédia, “os mais antigos relatos sobre o beijo remontam a 4500 anos, nas paredes dos templos de Khajuraho, na Índia”, mas não se esclarece sobre a então função do beijar.

“Na Suméria, antiga Mesopotâmia, as pessoas costumavam enviar beijos aos deuses. Na Antiguidade também era comum, para gregos e romanos, o beijo entre guerreiros no retorno dos combates. Era prova de reconhecimento”. Na Idade Média beijavam-se símbolos católicos.

Não creio que, hoje, se imaginem beijos com esses fins purificados. Penso que foi a literatura francesa do século XIX, com suas descrições erotizadas do beijo, que lhe deu o sentido atual, e foi o cinema hollywoodiano de meados do século passado que estabeleceu as suas formas.

Primeiro foi o modo Clark Gable. Em E o vento levou Gable envolvia e deitava Vivien Leigh em seus braços. A coreografia adveio da desproporção de tamanho entre ele, enorme, e ela, miudinha (na internet está o “beijo ícone da Segunda Guerra”, cena mais famosa do modelo).

Essa maneira marcou época, mas foi substituída pelo estilo Humphrey Bogart. Humphrey, em Casablanca, contracenou com Ingrid Bergman. Dado que menor do que ela, além de beijá-la subido em um caixote, teve de fazê-lo empertigado, buscando enquadramento cênico.

Ambos os filmes e ambas as formas de beijar fizeram moda. As duas películas vigoram como arte. O beijo Clark e Vivien era cinematográfico. O feitio de beijar Humphrey e Ingrid é a concepção que perdura. A nós, que a adotamos, parece que sempre foi e sempre assim será.

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