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Rituais de Dor e de Esperança

Por Léo Rosa

Já acompanhei acontecimentos tristes na vida de pessoas amigas. A maioria dos que me leem, creio, sabe do que falo quando refiro acontecimentos tristes. Às vezes alguém tem a existência como que atropelada, fica sem orientação. Os afetos ficam oprimidos, como se as referências se invalidassem. São as marcas da presença da falta, só sarada pela vivência do luto.

Nesses momentos, até para dizer uma palavra de conforto, deve-se respeitosamente atentar ao modo como cada um transita das suas fatalidades à sua busca de restabelecimento. A estrutura psíquica, a base cultural, a formação intelectual, a ideologia subjacente à sociabilização de uma pessoa sempre estarão presentes em cada instante dela, inclusive nos desgraçados.

Os modos de cumprir o luto de uma tragédia não são iguais para todos, nem tampouco os de receber solidariedade. A travessia de um acontecimento ruim e seus desdobramentos e implicações têm um componente de emoção muito particular, mas muitas vezes estão previstas cerimônias sociais tão fortes que o sujeito se vê obrigado, mesmo a contragosto, a expor-se a elas.

Nessas exposições ocorrem eventuais gestos carinhosos, mas também se padece da interpelação inconveniente procedimentos que menos amenizam e mais fazem prolongar a dor. Rituais de despedida ajuntam pessoas amigas, mas abrem espaço para hipocrisias, histerias religiosas, oportunismo de quem espera pela vulnerabilidade de alguém para angariar vantagem.

Quando quem sofre estende demasiadamente a passagem do sofrimento, penso, o faz com propósito purgatório. No alongado arrastamento da própria “sofrência”, se enfrentaria com a tragédia que o\a alcançou, se resolveria com ela, expurgaria dores, rancores, culpas. Creio que cultivar uma dor por excessivo tempo pode até ser exercício inconsciente de vingança inadmissível.

Os rituais, portanto, teriam uma utilidade, porque conduziriam o ser que sofre e lhe forneceriam meios para superação. Seja se acusando e se perdoando, seja culpando, odiando e desculpando pessoas ou circunstâncias, haveria um processo de remissão consigo e com o mundo. Ao fim de tudo a pessoa seria a mesma, mas seria outra, pois renascida para a vida.

Pode ser que seja assim. Mas é bom lembrar que esses cerimoniais são anteriores às religiões organizadas como centro de poder. Religiões são leituras e explicações mágicas do mundo, apenas que assumidas por poderosos estabelecidos. Leituras e explicações mágicas espontâneas, quando capturadas e manipuladas por religiões, convertem-se em instrumento de poder.

Não estou seguro, pois, que esses ritos cumpram suas funções primitivas de passagem. Penso que acabaram apropriados pelas religiões e restaram como formalidades de poder a se cumprir, a elas se submetendo. Afinal, são um conjunto de protocolos dados que se devem observar. Raramente alguém decide sobre os atos que cumpre, todos oferecidos prontos por instituições.

A Wikipédia me atesta razão; restamos submissos a meros formalismos: “Ritos de passagem são aqueles que marcam momentos importantes na vida das pessoas. Os mais comuns são os ligados a nascimentos, mortes, casamentos e formaturas. Em nossa sociedade, os ritos ligados a nascimentos, mortes e casamentos são praticamente monopolizados pelas religiões.

Já as formaturas não costumam ser, em si, religiosas, mas frequentemente têm importantes momentos religiosos”. A Enciclopédia Livre destaca essa maneira pela qual os episódios de colação de grau sucedem em escolas, inclusive universidades: as casas de ensino, havidas por espaços laicos e ilustrados, contemplam acriticamente os costumes das religiões.

De fato, embora os ritos vigorem, o alcance dos rituais na psique do humano atual já não é o mesmo. Hoje há mais formalidade cerimoniosa do que cerimônia de efeito psicológico. Contudo, seguimos apreendendo o mundo e nossa relação com ele não como relação social de poder, mas como mágica, como resultado de intervenção divina nas coisas e nos acontecimentos.

Uma amiga querida padece as dores de um infortúnio. Logo acabará um ano e outro se iniciará. No seu tempo de cumpri-lo, nas datas festivas inclusive, a minha amiga cumprirá o seu ritual de dor. Na ocasião da virada de ano, as pessoas realizam rituais de esperança. O primeiro de janeiro foi diferenciado dos demais dias do ano; ele marca uma cerimônia coletiva de passagem.

Primitivamente se festejava a época do plantio, o momento da colheita, a entrada das estações, as posições do sol, o equinócio, o solstício. Hoje se festeja o calendário. Aliás, o calendário em vigor, nomeado gregoriano, foi criado em 1582, pelo papa Gregório XIII. Seus doze meses são igualmente expressão de poder divino e mundano: prestigiam deuses e imperadores romanos.

Bem, o réveillon é ocasião que combina crendices, comilança, bebedeira. Famílias se reúnem, namorados se declaram, crianças gritam, adultos fogueteiam. Veste branca, pedidos a divindades. Esperança. Muita esperança de muitas coisas que esperança não vai resolver. Dia seguinte retorna a ordem regular da vida: algumas dores, pouca incredulidade, muito ritual.

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