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O dogma da diversidade

Por Arnaldo Niskier

A ideia de democracia tem evoluído ao longo dos últimos séculos. Para o célebre pensador francês Aléxis de Tocqueville (1805-1859), trata-se de um regime capaz de igualizar as condições dos cidadãos. Uma de suas obras mais célebres – “Da Democracia na América” – percorre a história sobre como os americanos tornaram a democracia uma forma de governo capaz de prover “igualdade e liberdade para os homens”. Mas é, também, um alerta sobre como a atuação de seus agentes pode criar as condições para o seu fim.

O estudo de Tocqueville deve ser visto não só como o olhar de um aristocrata francês para o “novo mundo”, mas também um aviso dos perigos que o sistema democrático pode ser comprometido por situações que ele mesmo cria. As inquietações que moveram o autor se mantêm atuais, especialmente em um contexto de queda dos índices de democracia mundiais. A radicalização extremista pode levar à sua destruição.

As ameaças mais imediatas à nossa democracia não vêm da China. Resultam do populismo autoritário de direita e do populismo autoritário de esquerda, que traz, como novidade no discurso, o projeto igualmente autoritário de uma “democracia diversitária”.

No Brasil, são os próprios partidos políticos que a paralisam. Estamos tomando o rumo de uma fragilização inédita das instituições sociais, como já vemos nos casos do sistema educacional e da negação absolutamente prematura da nação.

Percebe-se, em nossa sociedade, uma obsessão estatística crescente do multicultural-identitarismo, que descende, perversamente, do sonho igualitarista da Revolução Francesa. O representacionismo diversitário quer implantar, no campo da política, uma espécie de “representacionismo estatístico”. Como bem classificou o antropólogo Antonio Risério: “Estamos vivendo uma ‘ditadura do demograficamente correto’, tudo na base da cota”.

A transformação da ideia de diversidade em “dogma”, nas últimas décadas, ameaça o modelo de democracia liberal. Para Risério,  autor de “Sobre o Relativismo Pós-Moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária”, a ideologia diversitária se revela adversária plena das democracias. Nessa visão, a diversidade deveria reger o mundo – e o princípio de sua regência está na estatística: “É o fantasma do Estado fascista retornando ao palco. O corporativismo fascista se desdobra no corporativismo identitário.”

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