“Minha vida vai ao chão em breve”: relato de ex-morador do Pinheiro expõe dor e revolta após afundamento
Vídeo de Fábio Leite mostra apartamento abandonado e revive memórias destruídas pela tragédia causada pela Braskem
Um vídeo carregado de emoção e memória tem circulado nas redes sociais e reacendido a dor de milhares de famílias atingidas pela tragédia dos bairros afetados pela mineração em Maceió.
No registro, o ex-morador Fábio Leite retorna ao apartamento onde viveu até os 30 anos, no conjunto Jardim Acácia, localizado no bairro do Pinheiro — uma das áreas mais atingidas pelo afundamento do solo provocado pela atividade da Braskem.
O cenário encontrado é de abandono, destruição e silêncio.
“A maioria dos moradores já retirou tudo”, relata, ao mostrar a entrada do prédio praticamente esvaziada .
Memórias em ruínas
Ao caminhar pelos cômodos do antigo apartamento, Fábio reconstrói, com palavras e emoção, a história de uma vida inteira que agora se resume a lembranças.
Ali era a cozinha.
Ali, a sala.
Ali, o quarto da avó — onde aprendeu a rezar ainda criança.
“Não sou muito de me emocionar assim não, mas... é difícil”, desabafa .
Cada espaço carrega uma memória: os primeiros passos dados ainda bebê, as amizades de infância, os momentos em família e até o início de sua formação musical.
Hoje, nada disso permanece.
“Hoje não é mais nada”, resume.
A infância soterrada
Do lado de fora, o ex-morador aponta para o que antes era um campinho de futebol, onde passou parte da infância com amigos.
O espaço, que simbolizava convivência e lazer, agora integra uma paisagem marcada pela incerteza e pelo abandono.
“Foi aqui que eu dei meus primeiros passos, com sete meses de idade”, relembra.
A fala revela a dimensão da perda: não apenas material, mas afetiva e identitária.
Entre a saudade e a revolta
O relato alterna momentos de emoção profunda e indignação.
Para Fábio, a tragédia ultrapassa qualquer reparação financeira.
“É uma tragédia sem tamanho que uma empresa irresponsável está fazendo milhares de pessoas passar”, afirma .
O prédio onde viveu, identificado como Bloco 10, já está incluído na lista de demolição. Em breve, será completamente destruído.
“Grande parte da minha vida vai ao chão”, diz, ao encarar o destino inevitável do imóvel.
Uma despedida definitiva
A visita ao antigo lar tem um caráter simbólico: despedida.
A sensação descrita por Fábio é de ruptura total, como se aquele lugar deixasse de existir não apenas fisicamente, mas também na sua própria história.
“É como se eu estivesse indo para outro planeta, um lugar para onde não poderei voltar nunca mais”, relata .
A tragédia que permanece
O caso do Pinheiro, assim como dos bairros vizinhos afetados, segue como uma das maiores tragédias socioambientais urbanas do país.
Milhares de famílias foram obrigadas a deixar suas casas, rompendo laços comunitários, memórias e histórias de vida.
O vídeo de Fábio Leite não é apenas um relato pessoal — é um retrato coletivo.
Um testemunho da dor que permanece viva, mesmo anos depois.
E que insiste em lembrar que, por trás dos números e acordos, existem vidas inteiras que nunca mais poderão voltar para casa.