Veneno disfarçado
Conversar com meus netos é uma das maiores alegrias da minha vida. Em cada diálogo, encontro a oportunidade de ensinar, transmitindo valores e histórias que carrego comigo. Mas, ao mesmo tempo, descubro que também aprendo, pois eles me revelam novos olhares sobre o mundo, me surpreendem com a espontaneidade, curiosidade e pureza de suas palavras.
O mais importante, porém, é a sensação de realização que me invade o coração quando estou em suas companhias. Com eles, a vida ganha leveza, significado e brilho especial que só o amor entre gerações é capaz de proporcionar
Outro dia saí com o caçula Matheus para passeio de bicicleta, simples e feliz. No caminho, paramos e lhe ofereci um picolé Caicó, lembrança gelada da minha infância, no entanto, por descuido, o doce escapou de suas mãos indo ao chão.
Ficamos olhando, quando percebi uma formiguinha que se aproximou, investigou rapidamente e correu de volta para sua toca localizada bem próximo. Minutos depois, um verdadeiro batalhão surgiu, atraído pela notícia espalhada pela pequena mensageira.
Para minha surpresa, Matheus do alto dos seus quase cinco anos de vida, olhando em meus olhos falou: “Vovô, aquela primeira formiguinha que saiu correndo é muito fofoqueira, não é?”
Encantado com o pensar do meu pequeno, imaginei comigo mesmo como a vida se assemelha a aquele movimento das formigas. A fofoca, muitas vezes, funciona do mesmo jeito: um comentário pequeno, rápido, às vezes até distorcido, corre veloz e logo arrasta multidões, transformando-se em enxame.
Tal como as formigas se lançam sobre o picolé, as pessoas se atiram sobre a notícia, nem sempre para buscar a verdade, mas para se banquetear com a versão mais saborosa, ainda que destrua a realidade.
Aproveitando, falei a um dos meus amores que na vida, precisamos aprender a não ser a formiguinha que leva adiante o que ouviu sem pensar, devemos buscar a verdade antes de repetir palavras, porque nem todo doce que chega até nós é alimento, às vezes é apenas veneno disfarçado.