Quando o cuidado é negado: patriarcado, neurociência e a urgência de romper padrões abusivos
Assistir à minissérie All Her Fault foi, para mim, mais do que acompanhar um bom entretenimento, foi um reencontro com uma memória pessoal e dolorosa. A atuação incrível de Sarah Snook escancara algo que muitas mulheres reconhecem imediatamente: a naturalização da incompetência masculina nos cuidados com a vida cotidiana, especialmente quando envolve filhos, casa e responsabilidade emocional.
Ao longo dos episódios, revive-se um padrão conhecido de homens socialmente autorizados a se ausentar do cuidado, enquanto mulheres carregam, sozinhas, o peso da manutenção da vida. Esse roteiro não é ficção para milhões de brasileiras, muito menos foi para mim.
No meu primeiro casamento, encerrado há mais de 30 anos, vivi um relacionamento marcado por abuso e exploração. Lembro-me das noites em que retornava para casa após mais de 13 horas de jornada de trabalho. Meu filho tinha um ano e dois meses. Enquanto eu preparava o jantar, lavava roupas, organizava a casa e cuidava do banho e da alimentação da criança, o pai lia jornal, confortavelmente sentado, com um copo de uísque na mão.
Nada naquele cenário era casual. Aquilo era um sistema funcionando como havia sido programado. Terminei esse relacionamento quando meu filho tinha sete anos. Foi uma decisão difícil e socialmente questionada. Mas foi também um ato de lucidez e sobrevivência. Ao encerrar aquele padrão, interrompi uma herança: a de que mulheres existem para servir, sustentar emocionalmente e silenciar.
Hoje, meu filho tem 38 anos. Tornou-se um homem que compreende o papel da mulher não como cuidadora, mas como pessoa plena, igual em dignidade, direitos e responsabilidades. Ele é um defensor ativo dos direitos das mulheres. E isso não é por acaso, é consequência direta de um rompimento consciente com um modelo abusivo.
O que a neurociência tem a ver com isso? Tudo. Atualmente, ao cursar meu segundo MBA, agora em Neurociência e Comportamento, compreendo com clareza aquilo que vivi intuitivamente décadas atrás. A ciência mostra que comportamentos não são apenas individuais, eles são aprendidos, reforçados e neurologicamente moldados por contextos sociais.
O cérebro humano é plástico. Ele se adapta às normas que o cercam. Quando meninos crescem observando homens que não cuidam, não limpam, não nutrem e não se responsabilizam, essas ausências tornam-se normalizadas. Quando meninas são ensinadas, desde cedo, a antecipar necessidades, regular emoções alheias e carregar culpas que não são suas, seus cérebros aprendem a confundir o que é amor.
O patriarcado não é apenas uma ideologia: ele é um sistema de condicionamento neural e cultural. Desconstruí-lo exige mais do que discursos morais. Exige consciência, educação emocional, políticas públicas e modelos alternativos. Exige que homens sejam convocados, desde a infância, ao cuidado como competência, não como favor. E exige que mulheres reconheçam que romper padrões não é fracasso, é saúde mental, é ética, é futuro.
No Brasil, essa discussão ganha relevância. Vivemos em um país que registra índices alarmantes de violência contra a mulher e feminicídio. Esses números não nascem do nada. Eles são o estágio final de uma cultura que começa na desresponsabilização cotidiana, no desprezo pelo trabalho invisível das mulheres e na naturalização da desigualdade dentro de casa.
All Her Fault incomoda porque nos obriga a olhar para esse espelho. Minha história confirma que romper é possível, e transformador. A neurociência reforça que padrões podem ser reaprendidos. A sociedade brasileira precisa, urgentemente, assumir que cuidado é política pública, é educação, é economia e é sobrevivência.
Romper não destrói famílias. Romper destrói ciclos de abuso. E se hoje posso escrever este artigo, é porque escolhi, décadas atrás, encerrar uma história que não deveria continuar. Essa escolha não mudou apenas a minha vida. Mudou a de um homem que aprendeu que igualdade não é ameaça, é justiça.
Neiva Dourado Martins Mendes é atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia
Isabel Braga é CEO da Closet BoBags e da BoGo. Ambas priorizam a Economia Circular e o aproveitamento, em respeito ao meio ambiente