Reeleição de Lula repercute nos EUA e é apontada como influência na derrota de Trump
Professor de Relações Internacionais avalia que vitória do presidente brasileiro fortaleceu movimentos progressistas, enquanto política migratória, inflação e conflitos externos foram decisivos para o avanço democrata nas eleições norte-americanas
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é apontada como um dos fatores que contribuíram para o ambiente político que resultou na chamada “onda azul” nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcada por uma expressiva derrota do presidente Donald Trump. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Robson Coelho Cardoch Valdez, em entrevista ao jornal Correio.
Na análise do especialista, o resultado brasileiro ultrapassou as fronteiras nacionais e ganhou repercussão entre movimentos progressistas e organizações ligadas à defesa do meio ambiente. A vitória de Lula teria demonstrado que a mobilização popular e a participação política são capazes de enfrentar projetos considerados autoritários.
O professor destacou que a possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro também despertava preocupação em setores internacionais, especialmente entre aqueles que defendem a preservação ambiental. Isso porque uma eventual mudança no comando político brasileiro poderia representar retrocessos nas políticas de proteção da Amazônia e de enfrentamento às mudanças climáticas.
Valdez avalia que a vitória de Lula foi interpretada por parte da comunidade internacional como um resultado de importância global, diante do papel da floresta amazônica no equilíbrio climático do planeta. Esse cenário, segundo ele, pode ter influenciado o ambiente político durante os últimos dias da campanha norte-americana.
Apesar dessa possível influência, o especialista ressalta que os principais fatores para a derrota de Trump estão relacionados a questões internas dos Estados Unidos. Entre elas, estão a política migratória adotada pelo governo republicano, a elevação do custo de vida e os efeitos da atuação norte-americana em conflitos internacionais.
A postura do governo em relação aos imigrantes, especialmente as operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE), também teria contribuído para o desgaste político do presidente. As abordagens consideradas violentas e as deportações arbitrárias provocaram insatisfação, inclusive entre parcelas do eleitorado que anteriormente apoiavam Trump.
Outro ponto de desgaste foi a política tarifária, que, associada às tensões internacionais, trouxe consequências econômicas e ampliou a preocupação da população com o custo de vida.
Congresso deve ampliar pressão sobre Trump
A retomada da maioria democrata na Câmara dos Representantes e no Senado representa outro desafio para Donald Trump. Na avaliação de Valdez, a nova configuração do Congresso deverá fortalecer os mecanismos de fiscalização sobre as decisões presidenciais, inclusive na condução da política externa norte-americana.
Com maior presença da oposição nas duas Casas legislativas, o presidente poderá enfrentar obstáculos adicionais para administrar os conflitos internacionais nos quais os Estados Unidos estão envolvidos.
O professor também considera que a possibilidade de investigações e até mesmo de um eventual processo de impeachment poderá provocar desgaste político para Trump. Embora ainda não existam votos suficientes para assegurar uma eventual condenação no Senado, os democratas poderão utilizar as investigações para enfraquecer a imagem do presidente e do Partido Republicano, mirando as eleições presidenciais de 2028.
Petistas comemoram resultado e ironizam derrota republicana
A derrota de Donald Trump também repercutiu intensamente entre parlamentares brasileiros, principalmente entre integrantes e apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Nas redes sociais, políticos aproveitaram o resultado para relacionar o avanço democrata à vitória de Lula no Brasil e fazer críticas ao bolsonarismo.
Entre as expressões que ganharam destaque estão as hashtags “EUADidTheL” (os Estados Unidos fizeram o L) e “TheBolsonarosEffect” (o efeito dos Bolsonaro). As publicações fazem referência também à presença dos irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, após deixarem o Brasil alegando perseguição política.
A deputada federal Erika Hilton (PT-DF) classificou a derrota de Trump como uma importante vitória dos democratas. Segundo ela, o resultado também tem consequências para o Brasil, por representar uma barreira à influência do presidente norte-americano e das grandes empresas de tecnologia nos processos políticos brasileiros.
Já o deputado federal reeleito Lindbergh Farias (PT-RJ) comemorou o desempenho da oposição e definiu o resultado como uma “vitória maiúscula”. Para ele, o enfraquecimento de Trump representa mais um passo na resistência internacional ao crescimento da extrema-direita.
A deputada federal reeleita Duda Salabert (PSol-MG) também destacou os resultados históricos registrados nas eleições. Entre eles, a eleição da democrata Peggy Flanagan, primeira mulher indígena a conquistar uma vaga no Senado norte-americano, pelo estado de Minnesota, e a escolha de Keisha Lance Bottoms como primeira governadora negra da Geórgia.
Para Duda, os resultados demonstram uma mudança na correlação de forças políticas nos Estados Unidos e uma reação ao que classificou como uma “era do retrocesso”.
A primeira-dama brasileira, Janja Lula da Silva, também entrou na mobilização nas redes sociais. Em seu perfil no Instagram, publicou uma imagem produzida por inteligência artificial na qual a Estátua da Liberdade e o Cristo Redentor aparecem fazendo o gesto associado ao movimento político de apoio a Lula.
O deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), conhecido pela mobilização digital em defesa do presidente brasileiro, afirmou que a vitória de Lula está servindo de inspiração para outros países. Em publicação, declarou que o Brasil estaria mostrando ao mundo que é possível derrotar forças políticas de extrema-direita.
A mensagem chamou a atenção do ativista democrata norte-americano Isaiah Martin, que agradeceu ao Brasil por, segundo ele, ter mostrado o caminho para a vitória de aliados nas eleições de meio de mandato. Ao comemorar a conquista democrata da maioria nas duas Casas do Congresso, Martin também manifestou o desejo de conhecer o país e voltou a defender a deportação de Flávio Bolsonaro, posição que já havia apresentado na semana anterior.