PF mira Previdência do Amapá por aplicação de R$ 400 milhões no Banco Master, caso semelhante no IPREV
A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (6) a Operação Zona Cinzenta para investigar suspeitas de irregularidades na aplicação de recursos da Amapá Previdência (Amprev), órgão responsável pelo regime próprio de aposentadorias do estado. No centro do inquérito está o investimento de cerca de R$ 400 milhões em Letras Financeiras ligadas ao Banco Master, instituição cuja liquidação extrajudicial foi decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, em meio a grave crise e investigações.
A ação foi autorizada pela 4ª Vara da Justiça Federal e cumpriu mandados de busca e apreensão em Macapá, incluindo endereços vinculados ao diretor-presidente da Amprev e a integrantes do comitê de investimentos que teriam participado da aprovação das operações. A PF apura, entre outros pontos, possíveis crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta, buscando identificar quem decidiu, como decidiu e se houve dano ao patrimônio público previdenciário.
Do Amapá ao Rio: o “rastro Master” nos fundos públicos
O caso do Amapá não é isolado. A operação acontece num momento em que outros regimes próprios também entram no radar por investimentos semelhantes. Reportagens apontam que a Amprev aparece entre os maiores investidores públicos em títulos do Master, atrás do Rioprevidência, no Rio de Janeiro, que também já foi alvo de investigação por aplicações de grande porte.
E é justamente aqui que Maceió entra no debate.
Maceió tem caso parecido - e proporcionalmente pesado
Em Maceió, o Instituto de Previdência do Município (IPREV) foi alvo de forte questionamento político e jurídico após a revelação de aplicações em Letras Financeiras associadas ao Banco Master — um produto que, em regra, não tem a mesma lógica de proteção popularmente associada a instrumentos cobertos pelo FGC. Reportagens locais apontam cifra na casa de R$ 117 milhões em operações que passaram a ser cobradas por explicações públicas.
A diferença entre os casos, portanto, não é a natureza do “tipo” de investimento — é a escala:
• Rio de Janeiro: cerca de R$ 1 bilhão (magnitude estadual)
• Amapá: cerca de R$ 400 milhões
• Maceió: cerca de R$ 117 milhões (ordem municipal)
Mas o ponto central é outro: quando se compara proporcionalmente ao tamanho do ente federativo, R$ 117 milhões pode representar, para uma capital do porte de Maceió, um peso político e fiscal que não pode ser tratado como “detalhe técnico”. O dinheiro é da previdência do servidor — e risco previdenciário raramente fica “contido” no próprio fundo.
Quem paga a conta quando dá errado?
Quando um fundo previdenciário público sofre perdas ou fica com ativos de difícil liquidez, a pergunta inevitável é: quem garante o pagamento das aposentadorias e pensões? O regime próprio existe sob regras federais de organização e funcionamento (Lei nº 9.717/1998), e o ente público tem dever de manter o sistema de forma regular e sustentável — o que, na prática, costuma empurrar o risco final para o orçamento do Estado ou do Município, caso haja desequilíbrio.
Em outras palavras: se o patrimônio do fundo é colocado em risco, o problema tende a virar problema do Tesouro — e quem paga é a sociedade, seja por mais aporte, seja por aperto orçamentário, seja por cortes indiretos.
O “sinal vermelho” que vem de fora
A Operação Zona Cinzenta, no Amapá, funciona como um recado nacional: o tema não terminou com a liquidação do banco. Pelo contrário — a liquidação decretada pelo Banco Central em 18/11/2025 é o marco regulatório; agora, o foco se desloca para a cadeia decisória: quem recomendou, quem aprovou, quais pareceres embasaram e quais riscos foram ignorados.
Para Maceió, a leitura é direta: o caso do IPREV tende a ganhar ainda mais peso à medida que novas operações da PF avançam em outros estados. A cobrança pública passa a ser menos “política” e mais objetiva:
Quem assinou os pareceres e quais fundamentos técnicos foram usados?
Houve alerta formal sobre risco e liquidez?
O IPREV já publicou a situação atual dessas aplicações (valor, recuperação, provisões, perdas ou estratégias)?
Quais medidas foram adotadas para blindar o pagamento dos benefícios?
Investigações continuam
A PF informou que as apurações no Amapá seguem em curso e que novas fases não estão descartadas. A cada operação, o caso Banco Master deixa de ser apenas “escândalo bancário” e passa a ser também um teste de responsabilidade de gestores de previdência pública — do Norte ao Nordeste.