Título de graça? Vereador propõe cidadania honorária a deputado Paulinho da Força que nunca pisou em Palmeira dos Índios
Proposta de Salomão Torres para conceder título de cidadão honorário a deputado paulista que nunca esteve em Palmeira dos Índios expõe falta de critério, ironiza o conceito de “sabedoria” e transforma honraria municipal em gesto de conveniência política
A proposta do vereador Salomão Torres, do MDB, para conceder o título de cidadão honorário de Palmeira dos Índios ao deputado federal Paulinho da Força provocou estranhamento e ironias nos bastidores políticos e entre moradores da cidade. Para muitos, o parlamentar palmeirense só tem de sábio o nome — porque a iniciativa carece de lógica, critério e vínculo com a realidade local.
Segundo a justificativa apresentada, o “grande serviço” prestado por Paulinho da Força ao município teria sido a articulação para incluir o partido Solidariedade na ação julgada pelo Supremo Tribunal Federal sobre o marco temporal das terras indígenas. Um ato político-partidário, feito nos gabinetes de Brasília, que não resultou em benefício direto, concreto ou mensurável para a população de Palmeira dos Índios.
O detalhe que transforma a proposta em motivo de chacota é simples e objetivo: Paulinho da Força nunca pisou os pés em Palmeira dos Índios. Não há registro de visita, reunião, audiência pública, encontro com comunidades, produtores, indígenas ou qualquer gesto presencial que justifique o título de “cidadão” de uma cidade que ele sequer conhece.
A articulação citada pelo vereador, inclusive, partiu de solicitação do presidente regional do Solidariedade em Alagoas, Adeilson Bezerra, diretamente envolvido na disputa fundiárias no município. Ou seja, trata-se de uma movimentação interessada, localizada e política, e não de um serviço prestado à coletividade palmeirense.
O título de cidadão honorário, historicamente, é reservado a pessoas que mantêm laços reais com o município — seja por serviços relevantes, investimentos, atuação social ou contribuição cultural. No caso em questão, não há laço, não há presença e não há legado. Há apenas alinhamento partidário.
O currículo de Paulinho da Força, embora extenso, também não ajuda a sustentar a homenagem. Sua trajetória nacional é marcada por atuação no Centrão, condenações por improbidade administrativa, uma condenação criminal pelo STF ainda pendente de desfecho definitivo, defesa ativa de Eduardo Cunha no Conselho de Ética e episódios recorrentes de controvérsia política. Nada disso dialoga com a história, a cultura ou os desafios sociais de Palmeira dos Índios.
Ao insistir na proposta, o vereador Salomão Torres — cujo nome remete à sabedoria bíblica, mas cuja iniciativa revela o oposto — transforma uma honraria municipal em moeda de troca política. Um gesto que esvazia o sentido simbólico do título e expõe a Câmara ao ridículo institucional.
No fim, resta a pergunta que ecoa pelas ruas da cidade: como conceder cidadania honorária a quem nunca esteve aqui — e por um “serviço” que ninguém viu?
Se depender da lógica, da coerência e do respeito à história local, a proposta já nasceu sem sabedoria.