MEMÓRIA, HISTÓRIA E POLÊMICA

Proposta de tirar “Fernandes Lima” da principal avenida reacende debate sobre a Quebra de Xangô e os limites de “reparar” o passado com placas

Por Redação Publicado em 10/02/2026 às 15:37
Tutmés Ayran iniciou o movimento

A ideia lançada pelo desembargador Tutmés Airan de retirar o nome do ex-governador Fernandes Lima de vias públicas — em especial da avenida que há décadas é uma das principais artérias de Maceió — voltou a jogar luz sobre um dos capítulos mais sombrios da história alagoana: a Quebra de Xangô, episódio de 1912 marcado por violência contra religiões de matriz africana e, por extensão, contra o povo negro.

O debate, porém, vai muito além de um nome na placa. Ele toca em memória, reparação, política e no risco de se reduzir um acontecimento complexo — e brutal — a um único “culpado oficial”, como se a história fosse simples e linear.


O que foi a Quebra de Xangô


A Quebra de Xangô (também chamada por pesquisadores de “Quebra de 1912”) é descrita como uma ação organizada de invasões e destruição de terreiros em Maceió, com perseguição a lideranças religiosas e destruição de objetos sagrados. Estudos apontam que o ataque teve forte conteúdo de intolerância religiosa e racismo, e não foi um movimento “espontâneo”, mas articulado por grupos políticos e milícias civis da época.

Parte importante da literatura e de reportagens históricas associa o episódio à Liga dos Republicanos Combatentes, grupo que teria atuado no contexto de disputas políticas locais.


Fernandes Lima não estava sozinho — e é aí que o debate fica torto


A tese de Tutmés Airan mira Fernandes Lima como símbolo do episódio, mas a própria reconstrução histórica mais divulgada não coloca a responsabilidade em uma pessoa só. Há registros e textos que citam outros nomes e agentes no contexto da Liga e do conflito político daquele período — como Clodoaldo da Fonseca e o líder militar Manoel Luiz da Paz, além do pano de fundo envolvendo o então governador Euclides Malta e a atmosfera política do início da República.

Esse ponto é central: se a discussão é “varrer homenagens” por vínculo com 1912, ela não para em Fernandes Lima. Ela pode virar uma bola de neve, porque a história do episódio envolve rede, contexto e interesses, e não um único retrato emoldurado.


Mudança de nome: reparação ou barulho?


É legítimo que comunidades de matriz africana e movimentos de direitos humanos cobrem reconhecimento, respeito e políticas públicas — até porque o impacto da Quebra de Xangô atravessou décadas e deixou marcas na cultura religiosa alagoana.

Mas a pergunta incômoda é: mudar o nome da avenida produz qual efeito concreto?

Na prática, esse tipo de ação costuma gerar três consequências imediatas:

barulho político e disputa ideológica (com ampla polarização);

constrangimento e briga de versões envolvendo famílias e memórias;

baixa aderência popular, porque a cidade continua chamando os lugares pelos nomes que aprendeu — mesmo quando a placa muda.

Maceió já conhece esse fenômeno: muda na sinalização, mas nem sempre muda no uso cotidiano. A cidade não se apaga por decreto — e memória urbana não se reorganiza por caneta.


O que seria mais efetivo do que trocar placa


Se a intenção é combater intolerância e reparar a história, há caminhos de impacto mais direto do que rebatizar avenida:

tombamento, preservação e exposição pública de acervos ligados ao episódio;

programas permanentes de educação e combate à intolerância religiosa;

apoio institucional aos terreiros, inclusive com políticas culturais;

marcos de memória (placas explicativas, roteiros históricos, museus e centros de referência), contextualizando 1912 sem “simplificar” o passado.

Isso não apaga a dor, mas transforma a dor em política pública — e não apenas em disputa simbólica.


Uma discussão que precisa de história inteira, não de recorte


A proposta do desembargador, por si, reabre um debate necessário: a Quebra de Xangô foi violência e precisa ser lembrada com verdade.
Mas há um risco de se cair no atalho: tratar a reparação como troca de nome, como se isso resolvesse o que o Estado, por décadas, deixou de fazer em educação, cultura, respeito e proteção às comunidades.

Se for para mexer na memória urbana, que seja com honestidade histórica: ou se discute o contexto inteiro e todos os atores, ou se vira apenas um gesto de palco — barulhento, demagógico e sem resultado prático.