Com rombo de R$ 941 mi, Previdência de Maceió contrata consultoria de R$ 8 milhões sem licitação
Instituto repassou R$ 97 milhões a banco liquidado pelo BC e agora desembolsará valor milionário para modelar fundo com imóveis públicos
Em meio a uma crise financeira vertiginosa e um déficit projetado de R$ 941 milhões para 2027, o Maceió Previdência (IPREV) acaba de fechar um contrato milionário dispensando processo licitatório. A autarquia municipal fechou um acordo de R$ 7,98 milhões com a Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo, para tentar encontrar saídas econômicas para a falência iminente do regime próprio de previdência dos servidores públicos da capital alagoana.
O Termo de Contrato nº 127/2026, com duração prevista de 36 meses, foi assinado por inexigibilidade de licitação. O objetivo formal da contratação é a elaboração de estudos técnicos, diagnósticos, avaliações patrimoniais e assessoramento estratégico para "fortalecer" o órgão.
A engenharia para transformar patrimônio público em fundos de investimento
Detalhes da cláusula de subcontratação expõem a real finalidade da operação. O documento autoriza a contratação de administradores fiduciários e gestores para a criação de "fundos de investimento estruturados", exigência alinhada às normas do Conselho Monetário Nacional (CMN) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A movimentação se conecta diretamente a um decreto emitido pela Prefeitura de Maceió duas semanas antes, em 13 de julho. A medida transferiu uma valiosa cartela de bens imóveis ao Maceió Previdência, incluindo:
Os edifícios Palmares (de 15 andares) e Ary Pitombo;
O clube Sampaio de Melo;
Um terreno de 63 mil metros quadrados no bairro Bebedouro;
Uma área nobre à beira-mar na rodovia AL-101 Norte.
Enquanto a gestão municipal alegava à época que a transferência comprovava a "solidez" do fundo de R$ 1,6 bilhão, o sindicato dos educadores (Sinteal) alertava que a manobra levantava forte desconfiança sobre a real saúde das contas do instituto. O cenário atual confirma que os imóveis servirão como lastro para a criação de fundos financeiros modelados pela consultoria paulista.
Prejuízo milionário e batalha judicial
A urgência por novas fontes de receita ocorre no rastro de investimentos frustrados e controversos. O fundo de previdência de Maceió acumulou a terceira maior exposição do país no Banco Master, aplicando cerca de R$ 97 milhões em letras financeiras — papéis de alto risco que não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A instituição financeira sofreu liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.
O rombo gerou um desdobramento judicial no qual o senador Renan Calheiros ingressou com uma Ação Popular requerendo o ressarcimento de R$ 117 milhões. A ação pede a responsabilização da Prefeitura, de ex-diretores do IPREV, da consultoria Crédito & Mercado e do próprio banco falido.
Paralelamente, na Câmara Municipal, a crise ganhou contornos políticos: a Comissão de Justiça barrou e declarou inconstitucional uma emenda que tentava obrigar o Orçamento de 2027 a cobrir e recompor integralmente os prejuízos deixados pela aplicação malsucedida.