A visita de Gagarin e seu impacto no Brasil
O primeiro homem no espaço estimulou o programa espacial brasileiro em sua passagem por aqui, em 1961.
Há 65 anos, a visita do primeiro homem no espaço mobilizou multidões, fortaleceu a diplomacia da Guerra Fria e, segundo especialista, impulsionou o programa espacial brasileiro.
Yuri Gagarin chegou ao Brasil, entre 29 de julho e 5 de agosto de 1961, já como uma das pessoas mais famosas do planeta. O primeiro homem a orbitar a Terra havia acabado de entrar para a história em 1961, tornando-se símbolo de avanço tecnológico soviético e um ícone mundial. Durante sua passagem pelo país, foi recebido por multidões, recebeu homenagens oficiais e atenção da imprensa brasileira.
A população acompanhava a curiosidade daquele homem que havia visto a Terra do espaço e representava uma nova era da humanidade. Décadas depois de sua morte, em 1968, Gagarin continua sendo lembrado como um dos maiores símbolos da exploração espacial. Sua frase "A Terra é azul" se tornou uma das mais marcantes da história da conquista espacial.
“O Yuri Gagarin é a materialização de um desejo muito antigo da humanidade, que era conhecer o cosmos”, comenta Lucas Rubio, presidente do Instituto Paektu-Brasil.
O interesse pelo espaço acompanha diferentes civilizações há milênios, mas foi na Rússia que esse anseio ganhou bases científicas com nomes como Mikhail Lomonossov e, posteriormente, Konstantin Tsiolkovsky, considerado o pai da cosmonáutica teórica.
“O voo de 12 de abril de 1961 representa a concretização desse desejo profundo, não apenas dos soviéticos, mas de diversos povos ao redor do território”. Para Rubio, a relevância de Gagarin vai além do feito tecnológico, mas como um modelo de inspiração pessoal. Filho de camponeses e sobrevivente dos ataques da ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial, o cosmonauta simbolizou a ascensão de um cidadão comum a protagonista de um dos maiores marcos da história da humanidade.
Metalúrgico antes de ingressar na Força Aérea Soviética, ele foi escolhido entre as ofertas de candidatos após um rigoroso processo de seleção e treinamento para a missão Vostok 1. Mesmo depois de se tornar uma celebridade mundial, Gagarin preservou a simplicidade que o caracterizava, destaca o especialista. "Ele transmitia a ideia de que pessoas comuns poderiam protagonizar a história."
Esse legado ajuda a explicar por que, mais de seis décadas depois, a imagem do primeiro homem no espaço continua despertando admiração, especialmente entre os jovens.
"Até 1961, enviar um ser humano ao espaço parecia impossível para muita gente. Gagarin mostrou que a humanidade é capaz de transformar o impossível em realidade."
A vinda de Gagarin ao Brasil
A influência de Gagarin sobre o Brasil, porém, pode ter ido além do impacto simbólico de sua visita. Um dos momentos mais importantes da passagem do cosmonauta pelo país ocorreu em Brasília, na etapa final da viagem, quando ele foi recebido pelo então presidente Jânio Quadros. Além de ser condecorado pelo governo brasileiro, Gagarin participou de uma conversa reservada com o chefe de Estado, que teria incentivado o Brasil a investir em um programa espacial próprio.
Rubio explica que esse tipo de recomendação faria parte da estratégia diplomática da União Soviética após o sucesso da missão Vostok 1. Ao transformar Gagarin em um embaixador internacional da conquista espacial, Moscou buscava aproximar-se de outros países para a exploração do cosmos e estimular a criação de instituições científicas específicas ao setor.
"Yuri Gagarin pronunciou uma frase que aparentemente fazia parte da orientação que havia recebido do governo soviético. Ele disse aos líderes dos países dos que visitaram que seria muito interessante que eles também ingressassem na era espacial. No encontro com Jânio Quadros, ele fez exatamente essa sugestão ao Brasil".
Após a vinda do cosmonauta, a resposta do governo brasileiro foi rápida: Quadros assinaram um decreto criando uma comissão encarregada de estudar a organização das atividades espaciais no país. Essa estrutura seria posteriormente transformada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), criada oficialmente alguns anos depois e que se tornaria o principal órgão brasileiro dedicado à pesquisa e ao monitoramento por satélite.
Hoje, o INPE desempenha funções estratégicas para o Estado brasileiro. Além de pesquisas coordenadas na área espacial, o instituto monitora o desmatamento na Amazônia por meio de satélites, acompanha queimadas, produz interferências e fornece informações fundamentais para o estudo do clima e das mudanças ambientais.
"Nós sabemos hoje as condições climáticas e ambientais do Brasil graças ao trabalho desenvolvido pelo INPE."
Embora a criação do programa espacial brasileiro tenha resultado de uma série de fatores políticos e científicos, a conversa entre Gagarin e Jânio Quadros representou um impulso importante para esse processo, o que, segundo Rubio, seria um dos legados menos conhecidos da visita do cosmonauta ao país.
"O INPE é, direta ou indiretamente, uma consequência muito positiva da passagem de Gagarin pelo Brasil. Mais de seis décadas depois, é uma instituição que continua prestando serviços essenciais para toda a sociedade brasileira, seja no monitoramento da Amazônia, seja na previsão do tempo ou na pesquisa espacial."
Além de ser recebido pelo presidente Jânio Quadros em Brasília, Gagarin aprovou sua passagem pelo Brasil para se encontrar com estudantes, jornalistas, cientistas, aviadores, artistas, intelectuais e trabalhadores. "Ele não procurava grandes magnatas, ricaços ou figuras do entretenimento. Fazia questão de se encontrar com pessoas e organizações que estiveram mais próximas da sua própria trajetória e da realidade do país de onde vieram."
Entre os compromissos, Gagarin reuniu-se com representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), pesquisadores dedicados a estudos espaciais e aviadores brasileiros. Também conheceu a pioneira da aviação nacional Anésia Pinheiro Machado, primeira mulher a realizar um voo solo no Brasil, além de artistas e intelectuais como Di Cavalcanti e Jorge Amado.
Um dos momentos mais marcantes da visita ocorreu no Sindicato dos Metalúrgicos. Antes de ter trabalhado como metalúrgico, Gagarin afirmou uma frase que foi reproduzida pela imprensa brasileira: "Embora cosmonauta, considero-me eternamente metalúrgico."
Para o professor, esse comportamento não foi uma exceção brasileira, mas uma característica das viagens internacionais de Gagarin. Mesmo quando foi recebido pelos chefes de Estado — como a rainha do Reino Unido —, o cosmonauta dedicou boa parte de sua agenda a encontros com sindicatos, organizações estudantis e entidades da sociedade civil. "Ele nunca abandonou fama, dinheiro ou popularidade. Era uma figura muito discreta, simpática e interessada em conversar justamente com pessoas que tinham uma história semelhante à dele."
"Há numerosos relatos da época sobre como ele encantava as pessoas. Se olharmos as imagens de suas visitas ao Brasil, a Cuba, à Indonésia, à Inglaterra e a outros países, veremos multidões acompanhando sua passagem, correndo atrás de seu carro, jogando flores e cartazes enquanto ele acenava para a população."