Uefa anuncia boicote a competições da Fifa contra 'privatização' da Copa
Confederação reagiu a plano de Infantino de vender ações a investidores
A Uefa anunciou nesta quinta-feira (30) um boicote a todas as competições da Fifa, incluindo a Copa do Mundo, enquanto o presidente Gianni Infantino não retirar o projeto de criar uma empresa com investidores privados para administrar os torneios organizados pela entidade máxima do futebol mundial.
Em comunicado divulgado em seu site oficial, a confederação europeia disse que a decisão foi aprovada por todos os seus 55 membros.
"Rejeitamos, de forma unânime e inequívoca, a proposta da Fifa de transferir participações acionárias na Copa do Mundo e em outras competições para investidores privados", diz a nota publicada pela Uefa.
"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento.
Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte dela deve jamais ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda", acrescenta.
O posicionamento amplia a crise entre a Fifa e a Uefa, já agravada pela decisão da federação mundial de suspender um gancho de um jogo que havia sido imposto ao atacante americano Folarin Balogun durante a Copa de 2026, após pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O plano de Infantino prevê a criação de uma empresa privada, a Fifa Forward Enterprise (FFE), para cuidar das operações comerciais e das competições organizadas pela federação.
Essa companhia teria valor de mercado estimado em US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões), e a Fifa venderia para investidores uma fatia de US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões) em ações. Esse grupo de acionistas seria liderado por Joshua Kushner, fundador da gestora de recursos Thrive Capital e irmão de Jared Kushner, genro de Trump, com quem Infantino mantém boas relações.
O presidente da Fifa ainda deu prazo até 19 de setembro para que as federações nacionais manifestem apoio ao projeto, ameaçando distribuir menos dinheiro para as entidades que votarem contra a iniciativa.
"É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha relevância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à iminência de aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles encarregados de zelar pelo esporte", afirma a Uefa em seu comunicado, acusando a Fifa de praticar uma "intimidação indigna" contra as federações nacionais.
De acordo com a entidade europeia, permitir a entrada de investidores privados em competições "mudaria o futebol para sempre". "O retorno comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores transformam-se em uma pressão diária. Daquele momento em diante, cada decisão deixa de ser guiada pelo que melhor serve ao esporte e passa a ser orientada pelo que é melhor para os acionistas", diz.
Para a Uefa, o futebol "não pode hipotecar seu futuro em troca de ganhos financeiros", e "ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas detém para cuidar para a próxima geração".
"Nenhuma seleção nacional da Uefa participará de qualquer competição da Fifa enquanto essas propostas permanecerem em pauta, a menos que o plano seja totalmente abandonado e sejam oferecidas garantias vinculativas de que a Fifa jamais abrirá novamente sua governança ou suas competições para a propriedade privada", afirma a confederação europeia.
A Uefa conclui o comunicado declarando que a Copa do Mundo "pertence ao futebol" e que a voz da Europa "nunca estará à venda".