SEM ÁGUA NAS TORNEIRAS

Falta d’água e indignação popular em Palmeira: “Águas do Sertão” virou “Águas do Negão”

População denuncia colapso no abastecimento após concessão de 40 anos à empresa privada. Câmara foi conivente com o contrato e silencia diante do caos.

Por Redação Publicado em 14/10/2025 às 09:13

A paciência do povo de Palmeira dos Índios secou antes das torneiras. Desde que a concessionária Águas do Sertão assumiu o abastecimento da cidade, o que chega às casas é o ar do encanamento e o silêncio das autoridades. A população já não se refere mais à empresa pelo nome oficial — virou “Águas do Negão”, numa alusão ao ex-prefeito Júlio Cezar, que se autointitula assim e foi o responsável por assinar o contrato de 40 anos com a concessionária.

Quarenta anos de sede e silêncio


O contrato, apresentado como um marco de progresso, prometia modernização, eficiência e regularidade no fornecimento. O que se vê é o oposto: bairros inteiros sem água, encanamentos quebrados, pressão irregular e tarifas abusivas. O que era para ser uma parceria público-privada se transformou em um castigo coletivo.

Nos bairros periféricos, a cena é a mesma: baldes e tambores espalhados pelos quintais, esperando uma água que não vem. “O povo virou fiscal do vento, porque o vento é o que mais sai da torneira”, ironiza dona Creuza, moradora do São Francisco.

Câmera calada, conivência evidente


Quando o contrato foi aprovado, a Câmara de Vereadores não apenas foi conivente — foi cúmplice silenciosa. Nenhum questionamento relevante, nenhuma exigência de garantias reais. E quando, no início deste ano, uma audiência pública tentou reacender o debate sobre os prejuízos e o descaso da concessionária, o Legislativo municipal se recolheu ao mais conveniente dos lugares: o silêncio.

Calou-se diante da revolta do povo, calou-se diante das denúncias, calou-se diante da vergonha. É o tipo de omissão que dói mais do que a sede: o silêncio das instituições que deveriam defender o cidadão.

Contas cheias, cisternas vazias


Enquanto o povo raciona, as contas continuam pontuais — e caras. A empresa cobra, ameaça cortar o serviço e ainda exige que os consumidores “compreendam as dificuldades”. O cidadão paga pelo que não recebe e reclama sem resposta. “Aqui a gente paga pra sonhar com água”, diz seu Amaro, do bairro Cafurna.

A indignação se espalha. Grupos comunitários já articulam movimentos para exigir a revisão do contrato, considerado leonino e desproporcional. Há quem defenda que o Ministério Público entre em cena, já que a Câmara, que deveria fiscalizar, preferiu fingir que não vê.

Da promessa à piada

Julio Cezar, ex-prefeito

O contrato assinado por Júlio Cezar, que na época foi apresentado como “um salto histórico”, hoje virou motivo de piada. A “revolução do saneamento” se tornou a crise da sede, e a cidade que sonhava com progresso agora amarga a desconfiança.

Nas redes sociais, a ironia substituiu a esperança. “Águas do Sertão é só nome. Sertão mesmo é o povo, que vive seco de tudo — de água, de respeito e de vergonha alheia”, comentou um internauta.

Água virou luxo, silêncio virou rotina


A crise hídrica de Palmeira dos Índios é mais que um problema técnico. É um espelho político. Mostra o preço da irresponsabilidade pública, da submissão aos interesses privados e da omissão de quem deveria representar o povo.

O contrato de 40 anos virou símbolo de dependência, de desrespeito e de abandono. E enquanto o líquido essencial desaparece das torneiras, transborda a indignação.

A cada copo vazio, cresce a certeza: o que falta em Palmeira dos Índios não é só água — é vergonha na cara de quem devia responder pelo que fez e pelo que deixou de fazer.