Agricultura francesa é moeda de troca no acordo Mercosul-UE, afirma Arnold d'Alissac
Presidente da Organização Mundial dos Agricultores critica proposta e alerta para riscos de concorrência desleal aos produtores franceses
Arnold Puech d'Alissac, produtor francês, membro do Conselho Executivo da Federação Nacional dos Sindicatos de Exploração Agrícola da França (FNSEA) e presidente da Organização Mundial dos Agricultores (WFO), é uma das vozes mais críticas ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
"O acordo é um grande problema para nós, porque somos a moeda de troca. Temos a impressão de que vamos perder parte do nosso mercado", afirmou d'Alissac a jornalistas durante o COP-30 FarmersSummit, evento promovido pela WFO e pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília.
Na última quarta-feira, 5, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, informou que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reiterou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Belém, a expectativa de assinatura do texto final do acordo em dezembro.
A FNSEA, entidade presidida por d'Alissac, esteve no centro de uma crise entre o agronegócio brasileiro e o Grupo Carrefour em 2023. Na ocasião, o CEO do Carrefour, Alexandre Bompard, publicou uma carta nas redes sociais, dirigida a Arnaud Rousseau, presidente da FNSEA, comprometendo-se a não vender carnes do Mercosul, independentemente dos "preços e quantidades", após ouvir o "desânimo e a raiva" dos agricultores franceses.
Atualmente, a FNSEA utiliza em suas redes sociais o slogan "Não ao Mercosul" e organiza manifestações e protestos em toda a França contra o acordo. Entre os agricultores europeus, os franceses são reconhecidos como os mais resistentes ao tratado de livre comércio com o Mercosul.
Segundo d'Alissac, o acordo pode provocar concorrência desleal entre produtos agropecuários do Mercosul e os agricultores franceses. Ele argumenta que o custo de produção na França é superior ao do Brasil, destacando diferenças nos modelos produtivos, como a pecuária: enquanto o Brasil utiliza grandes confinamentos, a produção francesa é menor e familiar.
O dirigente também ressalta que agricultores brasileiros têm acesso a defensivos agrícolas proibidos na França. "Isso, obviamente, aumenta nosso custo produtivo. Quando jogamos futebol, precisamos ter as mesmas chuteiras. Não temos direito a uma chuteira eletrônica mágica", comparou d'Alissac, que mantém uma propriedade familiar na Normandia, onde produz aves caipiras, gado de corte e outras culturas.
Questionado sobre a expectativa do governo brasileiro de assinar o acordo em 20 de dezembro, durante a cúpula Mercosul-União Europeia, d'Alissac afirmou que os agricultores europeus "continuam lutando contra o acordo". "Eles são favoráveis a um acordo, mas não a este acordo. O problema é que a discussão está parada há seis anos", criticou.
Ele defende a inclusão de salvaguardas no tratado que possam ser acionadas unilateralmente pelo bloco europeu. "Temos cláusulas assim com o Reino Unido. Se houver perturbação no comércio entre o Reino Unido e a União Europeia, podemos bloquear o comércio de ambos os lados, de um dia para o outro. Com o Mercosul, só é possível bloquear temporariamente e apenas nos seis primeiros anos de vigência; depois disso, o acordo passa a valer integralmente", explicou. "Com todas essas dificuldades para financiar os agricultores, parece 'meio louco' aceitarmos um acordo nesses termos", acrescentou.
Para d'Alissac, há distorções de concorrência entre os blocos, como impostos diferenciados sobre o uso de insumos químicos. "Os agricultores europeus não entendem esse jogo duplo. Precisamos de um acordo com o Mercosul, mas também de reconhecer que nossos vinhos e queijos acessam o mercado do Mercosul sem barreiras e sem distorção de mercado", apontou o presidente da FNSEA e da WFO. "Quero que os agricultores europeus sejam felizes, mas não quero que os franceses sejam infelizes", concluiu.