ENTREVISTA EXCLUSIVA

‘Estímulos como isenção de IR desafiam corte da Selic’, avalia economista

Roberto Secemski, do Barclays, aponta que políticas expansionistas do governo podem limitar espaço para redução dos juros básicos em 2026

Publicado em 10/11/2025 às 08:30
Reprodução / Agência Brasil

Além de um mercado de trabalho aquecido e da inflação de serviços ainda resistente, uma série de medidas governamentais deve dar fôlego extra à atividade econômica em 2026, impondo um desafio adicional ao Banco Central para iniciar o ciclo de afrouxamento da Selic, a taxa básica de juros. A avaliação é de Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays, que mantém a expectativa de que o primeiro corte ocorra a partir de março.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O senhor elevou a estimativa para alta do PIB em 2026, de 1,7% para 2%, devido principalmente a políticas fiscais expansionistas. Como um quadro de atividade mais resiliente e uma política fiscal mais frouxa afetam os próximos passos da política monetária?

O principal ponto é que não se trata apenas de medidas fiscais, mas de uma combinação de programas de caráter mais expansionista, que devem se materializar ao longo dos próximos trimestres. Calculamos que, ao todo, R$ 225 bilhões poderão ser injetados na economia em 2026: um impulso relevante de crédito habitacional, seja por meio do Minha Casa, Minha Vida ou do Sistema Financeiro Habitacional (SFH), incluindo agora o programa Reforma Casa Brasil, com linhas subsidiadas, além da isenção do Imposto de Renda (IR) para salários de até R$ 5 mil – que, embora fiscalmente neutra, não é neutra do ponto de vista do consumo –, entre outras iniciativas do governo. Tudo isso sugere uma sustentação da economia que pode ser relevante, mantendo o PIB acima de seu potencial por mais algum tempo. Esse valor de R$ 225 bilhões impressiona, e há dificuldade em medir quanto se traduzirá em impulso à atividade, mas o cenário aponta para um ambiente em que parte do esforço da política monetária seguirá neutralizado, em certa medida, por iniciativas expansionistas, reduzindo o espaço para cortes de juros.

Quão pequeno é esse espaço que o senhor menciona?

Projeto um corte de 2,25 pontos percentuais na Selic ao longo do próximo ano, começando em março e se estendendo até setembro, o que considero um ciclo de afrouxamento restrito. As condições monetárias, em geral, continuarão apertadas, com transmissão para a atividade nos próximos trimestres. Portanto, há fatores atuando em direções opostas sobre a economia.

Além dessas medidas com efeito positivo na atividade, existem outros fatores que impedem um corte antes de março e uma redução maior da Selic?

É incontestável que a atividade econômica e a inflação têm evoluído na direção esperada pela política monetária. A questão é se estão enfraquecendo mais rapidamente do que o previsto. Para justificar um adiantamento dos cortes, acredito que não. Ao analisarmos a atividade em detalhes, a desaceleração não está sendo acompanhada de enfraquecimento do mercado de trabalho. Há sinais tênues de que um ponto de inflexão está próximo: a taxa de desemprego deixou de cair, mas ainda não está subindo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.