SAÚDE PÚBLICA

Continente americano perde certificação de região livre do sarampo

Transmissão endêmica do sarampo é restabelecida no Canadá e região das Américas deixa de ser considerada livre da doença pela Opas; Brasil mantém certificação, mas autoridades reforçam alerta para vacinação.

Publicado em 12/11/2025 às 10:36
Reprodução

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) anunciou nesta segunda-feira, 10, que o continente americano deixou de ser considerado região livre da transmissão endêmica do sarampo. Segundo comunicado da entidade, a circulação do vírus foi restabelecida no Canadá, onde há transmissão contínua há pelo menos 12 meses. Com isso, mesmo que outros países, como o Brasil, mantenham o status de livres da doença, as Américas perdem a certificação. "Essa perda representa um retrocesso, mas é também reversível", afirmou Jarbas Barbosa, diretor da Opas.

Essa é a segunda vez que as Américas perdem a certificação. Entre 2018 e 2019, surtos na Venezuela e no Brasil já haviam levado à perda do status de região livre do sarampo — doença altamente contagiosa, capaz de causar pneumonia, encefalite, cegueira e morte. No Canadá, o surto teve início em outubro de 2024, na província de New Brunswick, e já são mais de 5 mil casos registrados. Apesar da redução recente, ainda há transmissão em províncias como Alberta, Colúmbia Britânica, Manitoba e Saskatchewan.

"Enquanto o sarampo não for eliminado globalmente, nossa região continuará sob risco de reintrodução e disseminação do vírus entre populações não vacinadas ou com cobertura vacinal insuficiente. No entanto, como já demonstramos antes, com compromisso político, cooperação regional e vacinação sustentada, a região pode novamente interromper a transmissão e recuperar essa conquista coletiva", acrescentou Jarbas Barbosa.

Status do Brasil

Isabella Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que o Brasil apresenta alguns focos da doença, mas, graças à vigilância rigorosa, o país mantém sua certificação. "No entanto, precisamos ficar atentos, pois, por exemplo, os Estados Unidos estão em alerta e são um importante destino para brasileiros", alerta.

De acordo com a Opas, até 7 de novembro de 2025, foram confirmados 12.596 casos de sarampo em dez países das Américas. Aproximadamente 95% desses casos se concentram no Canadá, México e Estados Unidos, representando um aumento de 30 vezes em relação a 2024. Foram registradas 28 mortes: 23 no México, três nos Estados Unidos e duas no Canadá.

Cerca de 89% dos casos envolvem pessoas não vacinadas ou com situação vacinal desconhecida, segundo a Opas. Crianças menores de um ano são o grupo mais afetado, seguidas por crianças de um a quatro anos. Para conter o avanço da doença, Ballalai destaca a importância de vigilância, resposta rápida a casos suspeitos e campanhas de vacinação com a tríplice viral.

Renato Kfouri, presidente da Câmara Técnica para a Eliminação do Sarampo, Rubéola e Síndrome da Rubéola Congênita do Ministério da Saúde, reforça que a vacinação é fundamental para o controle da doença. A Opas estima que, nos últimos 25 anos, a imunização evitou mais de seis milhões de mortes nas Américas. O esquema vacinal prevê duas doses: embora a cobertura da primeira dose seja alta no país, a segunda dose está em torno de 79%, abaixo da meta de 95%.

Para fortalecer a resposta, a Câmara Técnica apresentou à Opas recomendações para intensificar a vigilância e ampliar a cobertura da segunda dose, com identificação de não vacinados e ações em regiões de baixa adesão. "O grande desafio é manter o Brasil livre do sarampo, especialmente diante do aumento de casos nos países vizinhos", conclui Kfouri.