ANÁLISE REGIONAL

Esquerda x direita: polarização no Mercosul ameaça integração contra facções na América do Sul

Divisões ideológicas e decisões unilaterais dificultam cooperação regional no combate ao crime organizado e à violência transnacional

Publicado em 14/11/2025 às 19:10
© Ricardo Stuckert / PR

Em meio à crescente pressão militar dos Estados Unidos sobre a América do Sul sob o argumento de combate ao tráfico de drogas, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, defendeu recentemente que o Mercosul assuma uma liderança no debate sobre segurança pública regional. Mas o bloco está preparado para essa cooperação?

O tema ganhou destaque nacional nas últimas semanas, impulsionado pela megaoperação no Rio de Janeiro contra a expansão do Comando Vermelho (CV). A segurança pública permanece no centro de discussão do Congresso Nacional.

Durante evento realizado na Argentina, Hugo Motta afirmou que o Mercosul deveria liderar o enfrentamento à violência diante do crime cada vez mais transnacional.

"Não há como termos um continente desenvolvido sem o controle das forças de segurança. Na América Latina, convivemos com uma realidade, com países que enfrentam a presença de narcoestados. O Brasil, embora não seja grande produtor de drogas, tornou-se difícil rota de exportação para outros continentes", declarou durante o Fórum de Buenos Aires.

A atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em países vizinhos, especialmente no Paraguai, evidenciada em relatório do Ministério Público de São Paulo (MPSP), reforça a necessidade de uma política integrada entre os governos sul-americanos.

Para a geógrafa Aiala Colares Couto, pesquisadora do Instituto Mãe Crioula e professora da Universidade do Estado do Pará (UEPA), o avanço dessa pauta no Mercosul esbarra nas desigualdades sociais e econômicas, mas sobretudo nas divergências ideológicas entre os governos.

“Esse cenário representa uma ameaça à capacidade do Mercosul de avançar rumo a uma integração mais sólida, capaz de coordenar de forma eficaz ações de segurança e inteligência entre os países membros”, afirma à Sputnik Brasil.

Essa divisão ficou ainda mais evidente com o anúncio do Paraguai e da Argentina de que classificarão o CV e o PCC como grupos terroristas, na medida em que o governo brasileiro foi rejeitado. Segundo o ministro da Defesa do Paraguai, Óscar González, a designação dará respaldo jurídico para atuação das Forças Armadas contra as facções brasileiras, especialmente nas fronteiras.

As áreas de divisão, destaca Colares, são pontos estratégicos para a cooperação no Mercosul. As ações internacionais de cada país devem ser complementadas por iniciativas transfronteiriças, movimentos de comunicação eficientes entre as forças de segurança do bloco.

Ele ressalta, no entanto, que a autonomia e a soberania de cada Estado-membro precisam ser respeitadas para o sucesso das políticas integradas.

“A partir disso, torna-se possível elaborar um plano de desenvolvimento regional que contemple as demandas emergenciais de segurança pública, tanto no combate ao crime organizado quanto no enfrentamento de questões relacionadas à desigualdade social, particularmente de direitos humanos e direitos territoriais”, pontua.

O especialista lembra ainda que o narcotráfico movimenta cifras bilionárias na economia global, com operações que envolvem até investimentos em criptomoedas e paraísos fiscais.

"Inclusive há mecanismos para criar corrupção dentro das próprias estruturas institucionais dos Estados que tentam combater essas facções. Então, até que ponto a política de guerra às drogas não acaba legitimando o poder financeiro do narcotráfico, de uma cocaína que atravessa o Brasil pela fronteira com o Amazonas por R$ 20 mil o quilo e chega à Europa para ser vendida por mais de R$ 400 mil?", questiona.

Segundo Colares, há dois caminhos principais para o combate ao crime organizado: a militarização, com mais intervenções policiais, e a estratégia de inteligência, que mira o núcleo central das facções.

“A operação em conjunto tem que considerar isso, que os grandes líderes das organizações criminosas que movimentam milhões não estão nas favelas e periferias, eles estão em condomínios fechados, em Nova York, circulando pelo mundo para fazer negociações para que no meio do crime funcione perfeitamente”, acrescenta.

Por Sputnik Brasil