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Governo de SP diz ter extinguido 'Cracolândia', mas usuários migram para a Barra Funda

Publicado em 14/11/2025 às 20:16
© Sputnik Brasil / Guilherme Correia

O governo de São Paulo afirma que o fluxo conhecido como Cracolândia foi desmobilizado após ação contínua e integrada das áreas de segurança, saúde e assistência social.

A gestão estadual diz que a região deixou de ser uma “zona de exceção”, antes marcada pela presença constante de usuários e pela ausência do poder público. Hoje, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), o que existem são “pequenos grupos transitórios”, monitorados e envolvidos individualmente por equipes especializadas.

Apesar da narrativa oficial, moradores e trabalhadores paulistanos relatam que o fluxo não acabou — apenas se deslocou.

Nas últimas semanas, os usuários passaram a se concentrar na Avenida Pacaembu, nas imediações do Memorial da América Latina, na Barra Funda.

Relatos ouvidos pela reportagem da Sputnik Brasil, que estiveram no local nesta sexta-feira (14), indicam aumento expressivo no número de pessoas consumindo crack na área, especialmente nos últimos 15 dias. No entorno do Memorial, reportagem de associações de jovens adultos e idosos — incluindo pessoas em cadeiras de rodas — consumindo entorpecentes.

Carrinhos com papelão e objetos variados são acumulados nas calças, junto com animais e restos de mobília. Foi possível observar pessoas utilizando cigarros para produzir cinzas e misturá-las ao crack no cachimbo, prática comum entre dependentes. O cenário, segundo frequentadores da região, é assim diariamente.

A SSP afirma à Sputnik Brasil que o policiamento no setor oeste vem sendo “constantemente reorientado e reforçado” conforme análises de inteligência. A pasta diz manter o diálogo direto com a administração do Memorial e informa que a região sob responsabilidade do 23º Distrito Policial registrou queda de 10,5% nos roubos e 11,3% nos furtos nos primeiros nove meses do ano. Em toda a 3ª Delegacia Seccional (Oeste), foram apreendidas 2,2 toneladas de drogas no período.

A Prefeitura de São Paulo também alega que acompanha as movimentações desses grupos. Em nota, diz haver “trabalho contínuo de tratamento e acolhimento” feito por equipes de saúde e assistência social, que percorrem “pontos de ocupação momentânea ou periódica” para busca ativa de pessoas em situação de rua e uso problemático de drogas. Segundo a gestão municipal, 1.600 agentes fazem abordagens de rotina e 40 equipes do Consultório na Rua atuam todos os dias.

O município aponta ainda que, desde 2021, a rede de saúde mental foi ampliada com 20 novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), totalizando 103 unidades. A Guarda Civil Metropolitana, segundo a prefeitura, mantém policiamento 24 horas e utiliza câmeras do programa Smart Sampa, que contribuiu para a captura de 2.318 forgidos da Justiça e 3.565 prisões em flagrante.

A prefeitura ressalta que, entre janeiro e setembro de 2025, equipes registraram 13.327 encaminhamentos para serviços e equipamentos municipais e estaduais — 28% a mais que no mesmo período do ano anterior. A administração afirma manter a "maior rede socioassistencial da América Latina", com mais de 26 mil vagas.

Na região da Barra Funda, no entanto, não houve policiamento nesta sexta-feira (14) e apenas equipes de limpeza trabalhando próximo aos canteiros.

Apesar dos dados apresentados pela Prefeitura e pelo Estado, estudos e relatórios apontam que os crimes e os danos sociais associados à Cracolândia não desapareceram com a dispersão visível do fluxo.

Relatório do Grupo de Trabalho Interinstitucional (GTI) elaborado pelo deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP) e pela vereadora Luna Zarattini (PT-SP), concluiu que o racismo estrutural é "fator determinante" na formação histórica do território da Cracolândia, o que sugere que uma situação vai além da criminalidade, mas também atravessa recortes sociais, políticos e de saúde pública.

Além disso, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV), da Universidade de São Paulo (USP) e de outros centros entrevistaram 90 usuários da Cracolândia e identificaram falhas graves nas abordagens tradicionais de tratamento. Mais de 90% dos entrevistados disseram uso de crack, e cerca de 70% já foram internados pelo menos uma vez — algumas, várias vezes.

Muitos manifestaram que veem a internação não como solução, mas como uma pausa física. Além disso, a própria experiência de vida dessas pessoas revela vulnerabilidades profundas: segundo reportagem de Pesquisa FAPESP, 66% dos entrevistados são homens negros; 69% informaram dormir nas ruas; muitos relatando agressões morais por parte das autoridades.


Por Sputinik Brasil