Antropofagia cultural: como sociedades se apropriam da cultura no universo político?
Elementos da cultura pop atrelados às manifestações políticas estão longe de ser uma novidade no mundo. No entanto, a apropriação de personagens pela geração Z — composta por jovens nascidos entre 1995 e 2009 — trouxe uma nova dinâmica aos protestos.
A onda de protestos no Nepal em setembro deste ano fez emergir um novo símbolo dos quadrinhos para as ruas: o uso de bandeiras relacionadas ao mangá One Piece. Nos quadrinhos, o símbolo conhecido como Jolly Roger é erguido como uma marca de liberdade contra o seu governo.
Nas ruas de Katmandu, elementos do mangá também foram exibidos em tom de reclamação contra o governo nepalês. Mas as histórias, os personagens e os elementos que compõem o enredo narrativo de uma história em quadrinhos, um filme ou um seriado não são necessariamente preparados com discursos direcionados para um espectro político ou até mesmo para manifestações políticas em si.
“Isso tem mais a ver com dinâmicas culturais do que necessariamente sobre a obra em si”, resume Alexandre Linck, professor doutor e pesquisador de quadrinhos, criador do canal Quadrinhos na Sarjeta.
Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, ele argumenta que cabe observar como as obras em si são recebidas em determinados grupos, como elas estão sendo vendidas e como o trabalho corrobora com a visão do mundo deles.
“Um exemplo mais óbvio, que eu sempre comento, é o V de Vingança. A máscara do V de Vingança se tornou uma máscara utilizada pela direita e pela esquerda. É uma máscara anarquista, ou seja, nem dentro da esquerda os anarquistas são maioria.
Embora os personagens como heróis obedeçam uma ideia de luta contra o mal, não necessariamente isso vai significar uma luta sob algum campo político. Neste sentido, Linck explica que os elementos culturais funcionam como "significantes vazios", em outras palavras, algo que chama atenção, mas que uma pessoa consegue projetar as próprias aspirações e demandas.
Segundo o pesquisador, a apropriação do personagem Luffy, da série One Piece nos protestos no Nepal, "nem é tanto pelo discurso da obra em si", ainda que alguns elementos estejam presentes.
"Mas é principalmente por essa dinâmica cultural do significativo vazio e pela necessidade de produzir coesão de grupo dentro de um grupo que, na verdade, não tem nada de coeso, que é apenas uma explosão de subjetividades, é apenas a manifestação de um desejo anti-sistêmico".
No caso da apropriação de personagens que, ao irem para as ruas, subvertem aquilo que apresenta nas obras originais, Linck considera um movimento historicamente natural.
"Essa apropriação não é uma apropriação que procura ser fiel à obra original. Pelo contrário, ela atua uma apropriação. Ou seja, ela está mais para uma antropofagia cultural, ou seja, você pega esses elementos, você devora o que te interessa e fica com aquilo que para você é mais pertinente".
As obras que nas telas ou nas páginas são de alguma forma lidas como disruptivas, não carregam, portanto, o mesmo significado exato quando serão disputadas por campos políticos nas ruas. “A gente está disputando uma obra que nem existe, uma obra que tem a ver muito mais com aspirações, com desejos, com expectativas, mas não tem tanto a ver mais com o mangá ou o anime originalmente”.
No caso do One Piece, de acordo com Mariana Pacheco, doutora em comunicação e especialista em cultura pop sul-coreana, "é uma ficção que passa num reino ficcional, mas traz questões políticas que afetam a Ásia", ou seja, conversa com a realidade daquela região. Entretanto, símbolos da obra são usados em outros países, como aconteceu em Madagascar e no Peru, que possuem culturas amplamente diferentes.
A cultura seguirá conversando com manifestações políticas?
Para Linck, a tendência é que sim, elementos da cultura pop estejam cada vez mais presentes em protestos e manifestações de cunho político. Conforme ele argumenta, hoje em dia as comunidades de fãs mobilizam mais que grupos religiosos e até mesmo partidos políticos.
“Um fandom de uma diva pop, um fandom de um determinado personagem, um fandom de um determinado anime, às vezes eles são mais organizados do que um partido político, ou têm mais gente do que um partido político, ou têm mais capacidade de mobilização que um partido político”.
A internet, neste caso, tem papel primordial para o funcionamento desta dinâmica. Quando falamos da geração Z, por exemplo, falamos de uma geração que "já nasceu conectada", diz Pacheco.
Com a conexão via internet, segundo a pesquisadora, barreiras geográficas, linguísticas e culturais foram rompidas. “A geração Z, ela não necessariamente precisa pertencer a um grupo dentro do seu país. Ela pode pertencer a um grupo fora do seu país”, comenta.
Apesar de uma viagem nacionalista ganhar espaço em meandros políticos, ela acredita que a tendência a partir da globalização no âmbito político deve ser uma constante.
Por Sputinik Brasil