Antropofagia cultural: como sociedades se apropriam da cultura no universo político?
Símbolos de obras como One Piece e V de Vingança transcendem fronteiras e são ressignificados em protestos ao redor do mundo, ilustrando como elementos culturais são adaptados a diferentes contextos políticos.
Antropofagia cultural: como sociedades se apropriam da cultura no universo político?
A recente onda de protestos no Nepal, ocorrida em setembro deste ano, trouxe para as ruas um novo símbolo de resistência: bandeiras inspiradas no mangá One Piece, especialmente o Jolly Roger, ícone que, nos quadrinhos, representa liberdade diante do autoritarismo. Em Kathmandu, elementos da obra foram exibidos como forma de crítica ao governo.
"Um exemplo mais evidente, que sempre menciono, é o V de Vingança. A máscara do personagem se tornou um símbolo adotado tanto pela direita quanto pela esquerda. Trata-se de uma máscara anarquista e, mesmo que os anarquistas não sejam maioria nem mesmo dentro da esquerda, de repente, todos passaram a utilizá-la. Independentemente do viés político que a obra possa ter, o que realmente importa é como ela circula", explica o pesquisador Alexandre Linck.
Segundo Linck, a apropriação do personagem Luffy, da série One Piece, nos protestos do Nepal, "não ocorre necessariamente pelo discurso da obra em si", embora alguns elementos estejam presentes. "Essa apropriação não busca ser fiel ao original; pelo contrário, é uma apropriação ativa. Ou seja, trata-se de uma antropofagia cultural: você absorve aquilo que lhe interessa e retém o que é mais pertinente para a sua realidade", completa.
No caso de One Piece, conforme destaca Mariana Pacheco, doutora em comunicação, "é uma ficção ambientada em um reino fictício, mas que traz questões políticas que dialogam com a Ásia", conectando-se à realidade da região. Mesmo assim, símbolos da obra são utilizados em outros países, como Madagascar e Peru, que possuem culturas amplamente distintas.
Por Sputnik Brasil