CIBERSEGURANÇA AVANÇADA

Brasil acelera defesa digital em meio à nova realidade de computadores quânticos

Projeto da Abin busca proteger sistemas nacionais diante dos riscos trazidos pela computação quântica, que pode tornar obsoletas as atuais formas de criptografia.

Por Sputinik Brasil Publicado em 17/11/2025 às 18:35
© Foto / Pixabay

No início deste mês, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) anunciou o desenvolvimento de um projeto estratégico para proteger o país diante das ameaças crescentes à criptografia, impulsionadas pelo avanço dos computadores quânticos. Especialistas em cibersegurança detalham à Sputnik Brasil a importância da iniciativa para a soberania digital nacional.

Os computadores quânticos são capazes de realizar, em segundos, tarefas que levariam até 100 anos para serem concluídas por máquinas convencionais. Embora se esperasse que essa tecnologia só se tornasse realidade após 2030, ela já começa a impactar o cenário global e ameaça comprometer a segurança dos dados criptografados, como explica Guilherme Neves, professor do Ibmec e pesquisador do Instituto Militar de Engenharia (IME).

“A maioria das quebras de criptografia é feita por força bruta, ou seja, por tentativa e erro, gerando e testando chaves aleatórias até encontrar a correta. Se um computador quântico tem uma capacidade trilhões de vezes maior que um computador comum, torna-se muito mais fácil quebrar essa proteção”, alerta Neves.

Diante desse cenário, o Brasil iniciou um projeto com previsão de conclusão em até 18 meses, fruto de parceria entre a Abin e o Centro de Competência em Cibersegurança da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial). O objetivo é desenvolver tecnologias de proteção contra a ameaça quântica.

“Todos os nossos certificados digitais, como e-CPF e e-CNPJ, são baseados em criptografia. O comércio eletrônico, os documentos sigilosos, o blockchain e as criptomoedas também dependem dela. Sem criptografia, não há garantia de identidade. Esse é o grande desafio da humanidade hoje”, exemplifica o especialista.

Setores críticos sob risco

Segundo Guilherme Neves, setores como o de energia são especialmente vulneráveis, pois toda a infraestrutura nacional está integrada ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

“Se o ONS sofrer um ataque, é possível desligar o país, explodir uma subestação ou derrubar a barragem de uma usina hidrelétrica. É um setor crítico que deve ser tratado como prioridade”, afirma.

Além disso, sistemas automatizados em aeroportos, hospitais e portos também estão sob ameaça. “No setor de saúde, por exemplo, há os dados do SUS. Imagine a troca de prescrições médicas e o caos que isso poderia gerar. Estas são áreas prioritárias para proteção”, acrescenta.

Apesar das dificuldades tecnológicas e da redução de 76% no financiamento público à pesquisa científica, o Brasil tem capacidade técnica para criar algoritmos pós-quânticos, fundamentais para a segurança dos sistemas de criptografia. Neves ressalta que não há dependência estrangeira para esse desenvolvimento.

“O cronograma dos riscos quânticos foi antecipado; antes, pensava-se em 2030, mas agora o risco é imediato. Temos ações em andamento na USP, no IME estamos construindo um laboratório de computação quântica com recursos já reservados, e implantamos o primeiro link quântico do Brasil, ligando o IME ao Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Já existe parte da infraestrutura necessária para testar novos algoritmos”, explica.

Para o especialista, a defesa da soberania digital está diretamente ligada à permanência dos pesquisadores no país, combatendo a chamada “fuga de cérebros”. No entanto, ele aponta entraves como baixos investimentos e bolsas de pesquisa pouco atrativas.

“Hoje, um doutorando recebe R$ 2.800 de bolsa, valor inferior a dois salários mínimos. Além disso, se o pesquisador tiver vínculo empregatício, não pode receber bolsa. Isso dificulta a permanência desses profissionais no Brasil. Sem doutores e PHDs, a tecnologia não avança”, conclui Neves.