ARQUEOLOGIA | ISRAEL

Achado arqueológico revela interação inédita entre mulher e ganso há 12 mil anos

Estatueta de argila encontrada no norte de Israel mostra a representação mais antiga conhecida de uma mulher e a primeira interação humano-animal esculpida no Levante, evidenciando práticas simbólicas dos natufianos.

Por Sputnik Brasil Publicado em 18/11/2025 às 05:48
© Foto / Pixabay

Uma estatueta de argila queimada de 12 mil anos, descoberta no norte de Israel, revela a mais antiga interação humano-animal já registrada em escultura: um ganso em postura de acasalamento com uma mulher. O achado lança luz sobre a visão animista dos natufianos e marca um ponto de inflexão simbólico anterior ao Neolítico.

O artefato, batizado de Nahal Ein Gev II, foi identificado pelo arqueólogo Laurent Davin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, ao analisar milhares de fragmentos de argila de sítios natufianos. A estatueta surpreendeu os pesquisadores ao apresentar, de forma clara, uma figura feminina interagindo com um pássaro, algo inédito para o período.

Os natufianos, que viveram entre 15.000 e 11.500 anos atrás no Levante — região que engloba Síria, Líbano, Israel, Jordânia, Palestina e Chipre — já possuíam casas de pedra, enterravam seus mortos e criavam repertórios simbólicos complexos. No entanto, representações humanas completas eram extremamente raras, tornando a descoberta ainda mais significativa.

Com apenas 37 milímetros, a peça foi moldada com notável precisão. Uma impressão digital preservada sugere autoria feminina, e o objeto foi cuidadosamente aquecido a cerca de 400°C para evitar rachaduras. Vestígios de pigmento vermelho indicam que a estatueta era originalmente colorida, reforçando seu caráter simbólico e intencional. O ganso, representado em típica postura de acasalamento, é facilmente reconhecível para quem conhece a espécie.

Diferente de cenas de caça ou troféus, a estatueta apresenta uma narrativa deliberada de encontro entre espécies, refletindo uma visão de mundo animista, na qual animais detinham agência e papel espiritual. O objeto antecipa práticas simbólicas que só mais tarde se consolidariam em centros rituais como Göbekli Tepe, demonstrando que a imaginação religiosa já se expressava em artefatos muito antes do surgimento da escrita ou da agricultura.

A figura feminina também chama atenção. Sua postura curvada, o triângulo púbico, os seios decorados e o rosto esculpido fazem dela a representação naturalista mais antiga de uma mulher no Levante. Até então, imagens femininas natufianas eram estilizadas ou fragmentadas. O grau de sofisticação da peça sugere uma transição tecnológica, no momento em que a cerâmica começava a ser desenvolvida, revelando raízes profundas para o uso simbólico da argila.

No sítio arqueológico, foram encontrados abundantes restos de gansos, especialmente penas e asas utilizadas em ornamentos e trajes rituais. Essa escolha cultural, apesar da variedade de aves disponíveis, indica que os gansos tinham valor simbólico especial para os natufianos. Assim, a estatueta materializa uma relação prática e espiritual entre humanos e aves, possivelmente ligada a cosmologias, rituais ou narrativas que se perderam no tempo.

Na época em que foi criada, as comunidades natufianas caminhavam para a sedentarização, com aldeias, arquitetura mais elaborada e identidades sociais em formação. A estatueta NEG II captura esse momento de transição, simbolizando o surgimento de uma "tecnologia da imaginação" que prenunciava as revoluções simbólicas associadas à agricultura e à vida comunitária.