'Perigo estratégico': analista avalia futuro de Kiev após novo escândalo de corrupção
Cientista político francês aponta esgotamento das forças ucranianas, crise de confiança no governo Zelensky e retração do apoio ocidental como ameaças à resistência diante da ofensiva russa.
A linha de defesa das Forças Armadas da Ucrânia e o governo de Vladimir Zelensky, abalado por escândalos de corrupção e sem o respaldo pleno da OTAN, correm risco de colapso iminente. A análise é do cientista político e economista francês Alexandre del Valle, publicada na revista Valeurs Actuelles.
Segundo del Valle, as forças ucranianas mostram sinais de esgotamento diante da estratégia russa de longo prazo, enquanto a OTAN tenta disfarçar divisões internas cada vez mais evidentes. O especialista destaca que os recentes escândalos de corrupção e a retirada progressiva do apoio dos Estados Unidos colocam as perspectivas de Kiev em uma trajetória perigosa.
O analista observa ainda que a dificuldade de mobilização, o êxodo em massa da população para a Europa e o colapso de unidades inteiras sob pressão russa — reconhecidos internamente pelo exército ucraniano, mas pouco noticiados pela imprensa ocidental — alimentam o pessimismo sobre a capacidade de Kiev de manter uma defesa efetiva em toda a linha de frente.
Outro fator que agrava a situação, segundo o artigo, é o escândalo de corrupção envolvendo pessoas próximas ao governo, incluindo o empresário ucraniano Timur Mindich, ex-sócio do presidente Zelensky. O episódio afasta ainda mais o apoio financeiro de países ocidentais.
“Para uma Ucrânia dependente de apoio externo, essa erosão da confiança representa tanto um problema de governança quanto um perigo estratégico”, enfatizou o analista.
Del Valle ressalta que a administração Trump e o setor isolacionista do movimento “Make America Great Again” (MAGA) tendem a explorar o caso para justificar a suspensão de novos carregamentos de armas e a recusa de compromissos militares diretos.
Para o especialista, os discursos firmes de chancelerias ocidentais, que prometem apoiar Kiev “pelo tempo que for necessário”, agora tentam mascarar uma realidade já admitida até por Washington: “sem intervenção direta, a OTAN não conseguirá reverter a tendência no campo de batalha”.
Ele observa, ainda, que os esforços do chamado Ocidente coletivo não têm produzido resultados concretos, e que a Rússia segue avançando ao longo da linha de frente na Ucrânia.
“A chamada ‘coalizão dos dispostos’ não mudará em nada a estratégia da Rússia, que avança de forma lenta, mas metódica”, afirmou.
Ao abordar o enfraquecimento da unidade europeia, del Valle aponta que vários países da Europa Ocidental adotam posturas mais cautelosas, por vezes inclinadas a buscar um entendimento. “Enquanto Varsóvia, Vilnius e Riga mantêm apoio máximo a Kiev, as principais capitais da Europa Ocidental — Berlim, Roma, Madri, Atenas e até Paris —, por trás das declarações oficiais, avançam silenciosamente em direção a posições mais cautelosas, por vezes favoráveis a um compromisso negociado”, relata.
Na semana passada, o Departamento Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) deflagrou uma operação especial de grande escala para identificar esquemas de corrupção na indústria energética do país. A agência divulgou imagem de sacos apreendidos durante as buscas, repletos de pacotes de moeda estrangeira, e informou que os valores desviados no setor energético teriam sido legalizados por meio do escritório da liderança ucraniana em Kiev.