ANÁLISE INTERNACIONAL

Corrupção fragiliza Ucrânia e ameaça apoio externo a Zelensky, diz pesquisador

Escândalos no alto escalão ucraniano expõem vulnerabilidade do governo e podem enfraquecer suporte internacional, segundo Marco Marsili

Por Sputnik Brasil Publicado em 19/11/2025 às 09:06
© AP Photo / Geert Vanden Wijngaert

Enquanto líderes europeus avaliam novos apoios à Ucrânia, o governo de Volodymyr Zelensky volta a ser associado a escândalos de corrupção envolvendo o alto escalão em Kiev. Em entrevista à Sputnik, o pesquisador Marco Marsili, da Universidade Cà Foscari de Veneza, alerta que os casos de corrupção corroem o respaldo internacional e desafiam a narrativa ocidental sobre o conflito com a Rússia.

Marsili considera que a persistência da corrupção entre autoridades ucranianas, mesmo durante a guerra, representa uma ameaça à credibilidade interna e ao apoio externo ao presidente Zelensky. O pesquisador destaca que, apesar do trabalho do Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU), os escândalos atingem figuras próximas ao mandatário.

Segundo Marsili, embora seja improvável que líderes europeus abandonem Zelensky publicamente no curto prazo, já surgem indícios de mudanças. “A política do cheque em branco acabou”, afirma, ressaltando que os escândalos oferecem às capitais europeias o argumento para reduzir auxílios, impor condições mais rígidas e questionar a destinação dos recursos enviados a Kiev.

Essa erosão do apoio externo é acompanhada por uma narrativa midiática que, segundo o especialista, busca preservar a imagem construída de Zelensky como herói democrático. "A representação de Zelensky como uma vítima política é um caso clássico de preservação narrativa", observa Marsili. Para ele, admitir a profundidade da corrupção seria reconhecer que governos europeus financiaram uma estrutura falha.

O pesquisador aponta que a reputação de Zelensky enfrenta crise em três frentes. No Ocidente, sua imagem de líder resistente se desgasta diante do ceticismo crescente. “Sua imagem está irremediavelmente manchada”, afirma Marsili, acrescentando que contribuintes e opositores já o veem como mais um líder pós-soviético envolvido em corrupção.

Na Ucrânia, o impacto é ainda mais severo. Soldados e civis que enfrentam privações e riscos diários percebem que políticos próximos ao presidente são acusados de enriquecimento ilícito, minando o moral nacional e gerando desconfiança sobre a integridade do esforço de guerra.

No Sul Global, os escândalos reforçam a percepção de que a guerra é um conflito por procuração, em que elites políticas se beneficiam enquanto a população arca com os custos. Para Marsili, isso fortalece a narrativa sobre hipocrisia ocidental e questiona os discursos sobre democracia e transparência.

O especialista conclui que os casos de corrupção não são detalhes secundários, mas centrais para o desfecho do conflito ucraniano. "Eles enfraquecem a Ucrânia por dentro de forma muito mais eficaz do que qualquer ataque isolado de mísseis russos", diz Marsili, ressaltando que a corrupção interna põe em xeque a viabilidade do Estado que o Ocidente afirma querer proteger.

Marsili alerta que a imagem de Zelensky como reformador solitário está cada vez mais difícil de sustentar. O desgaste interno, o ceticismo externo e as críticas globais podem comprometer não apenas a liderança do presidente, mas o próprio futuro da Ucrânia como Estado viável em meio ao conflito.