Soberania de dados: governo e elite evitam ruptura com Big Techs, avalia especialista
Após falha global da Cloudflare, debate sobre dependência de serviços estrangeiros ganha força. Analista aponta resistência do governo e da burguesia brasileira em buscar alternativas nacionais.
Uma falha técnica nos serviços da Cloudflare, ocorrida na última semana, tirou do ar ou dificultou o acesso a centenas de sites em todo o mundo, incluindo portais brasileiros como a página das Forças Armadas. O episódio reacende o debate: é seguro para o Brasil depender de serviços digitais estrangeiros?
Em entrevista à Sputnik Brasil, Caio Almendra, membro do Instituto Brasileiro de Ciência de Dados (BI0S), afirma que não há interesse, tanto do governo federal quanto da elite econômica brasileira, em romper com o domínio das Big Techs, que controlam o mercado global de tecnologia.
Almendra destaca que países como a China, preocupados com o uso de dados da população por empresas estrangeiras, enfrentaram barreiras impostas por Washington à atuação de companhias norte-americanas em seus territórios. Sem acesso a redes sociais e outros serviços ocidentais, Pequim desenvolveu seu próprio ecossistema digital.
"Não estamos em um estágio de exercer tal grau de conflito, como a China. Não há interesse do governo nacional, mesmo de esquerda, como o do presidente Lula. Tampouco há interesse da burguesia nacional, pois há receio de perder acesso a essas ferramentas e de ter que construir alternativas próprias", avalia o especialista.
Segundo Almendra, até hoje não existe um método eficaz para substituir os serviços das Big Techs, a não ser diante de uma ruptura completa com esse ecossistema. Ele ressalta que a competição de um serviço novo, seja estatal ou privado, com ferramentas já consolidadas, implica grande desvantagem concorrencial.