Pacientes do Rio podem ficar sem diálise por falta de repasses da Unimed Ferj
Clínica ameaça suspender atendimento a 45 beneficiários devido a dívida de R$ 600 mil; especialistas alertam para risco de morte em caso de interrupção do tratamento
Giselle Sekiguchi, paciente renal há 16 anos e beneficiária da Unimed Ferj, teme ter de interromper as sessões de diálise realizadas em uma clínica no Rio de Janeiro. O estabelecimento informou que, a partir do próximo dia 9, deixará de atender 45 pacientes da operadora devido à falta de repasses. "É desesperador porque a diálise é essencial para nossa sobrevivência e já é, por si só, um desgaste físico e emocional enorme. Com essa incerteza, tudo se torna ainda mais difícil", relata Giselle.
Localizada no Engenho de Dentro, zona norte da capital fluminense, a Clínica Gamen afirma que a dívida da Unimed Ferj já soma R$ 600 mil referentes à prestação dos atendimentos.
Risco de vida com a interrupção
As sessões de diálise na clínica ocorrem, em média, três vezes por semana e duram cerca de quatro horas cada. Esse tratamento é fundamental para pacientes que perderam a função renal, como nos casos de insuficiência renal aguda ou crônica, e que dependem do procedimento para a filtragem do sangue.
Segundo o nefrologista e diretor da Gamen, Guilherme Fonseca Mendes, pacientes com insuficiência renal crônica ou avançada apresentam sintomas como fraqueza, náusea, vômitos, perda de peso, sonolência e confusão mental, sendo a diálise uma ponte até o transplante. "Não realizar o tratamento pode ser fatal, especialmente para quem necessita de sessões frequentes", alerta.
"Múltiplas foram as tentativas de contato com a Unimed, tanto para cobrança quanto para negociação de valores, mas não obtivemos resposta", afirma Mendes. Ele também relata que nunca recebeu retorno da Unimed do Brasil, responsável pela assistência dos beneficiários da Unimed Ferj após acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
O jornal Estadão procurou a Unimed do Brasil para esclarecer se a operadora foi notificada sobre o problema na clínica carioca e se há algum plano de ação para o caso. Também questionou se a operadora nacional assumiu, de fato, os cuidados com os beneficiários da Unimed Ferj, mas não obteve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação. "Não temos como manter a assistência, infelizmente. Alguns pacientes estão conosco há mais de 20 anos, mas a dívida está insustentável", lamenta Mendes.
Para Leonardo Barberes, médico nefrologista e vice-presidente da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), a crise provocada pela Unimed Ferj estrangulou os serviços. "No fim, quem pagará a conta imediata são os pacientes e profissionais de saúde", afirma.
Crise financeira se agrava
Esta não é a primeira vez que beneficiários da Unimed Ferj enfrentam dificuldades por falta de repasses. A operadora vive uma crise financeira que já resultou em interrupção de quimioterapias, falta de medicamentos e descredenciamento de clínicas especializadas, inclusive no atendimento a crianças com deficiência.
Em setembro deste ano, a ANS adotou medidas emergenciais, como a aplicação de multa de R$ 1 milhão, para tentar normalizar a situação. Mais recentemente, a agência anunciou que a Unimed do Brasil assumiria integralmente a assistência aos beneficiários da Unimed Ferj a partir de 20 de novembro. Segundo a operadora carioca, todas as condições contratuais seriam mantidas.
A Unimed Ferj é a sexta maior operadora do Estado do Rio de Janeiro e possui beneficiários em todo o país. Segundo a ANS, são cerca de 396 mil usuários no Brasil.