ECONOMIA DOMÉSTICA

Endividamento leva 14% dos brasileiros a usar poupança para despesas do dia a dia, aponta FGV

Índice permanece elevado pelo segundo mês consecutivo; cenário de inadimplência e juros altos preocupa especialistas

Publicado em 29/11/2025 às 09:00
Endividamento leva 14% dos brasileiros a usar poupança para despesas do dia a dia, aponta FGV GettyImages

A proporção de consumidores que recorreram à poupança para quitar despesas correntes atingiu 14,0% em novembro, de acordo com a métrica de médias móveis trimestrais. Embora tenha havido uma leve melhora em relação a outubro, quando o índice era de 14,2%, o patamar segue considerado alto pelo segundo mês consecutivo, segundo critérios da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Os dados fazem parte da Sondagem do Consumidor, realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV) e obtidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado.

De acordo com a FGV, a utilização da poupança para o pagamento de despesas cotidianas é classificada como "alta" quando está entre 13,4% e 14,2%, e "muito alta" se ultrapassa 14,3%. Ou seja, o resultado de novembro permanece próximo da faixa considerada "muito alta", alcançando um dos níveis mais elevados desde 2022.

"Apesar de ter havido um pequeno recuo em novembro, esse indicador tem apresentado piora nos últimos meses, o que acende um sinal de alerta", avalia Anna Carolina Gouveia, economista do Ibre/FGV.

Segundo a pesquisadora, o cenário é de inadimplência e endividamento elevados, agravados pela taxa básica de juros em 15,00% ao ano, o que encarece as dívidas. Gouveia destaca que o recente aumento na confiança do consumidor pode ser passageiro.

O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu 1,3 ponto em novembro em relação a outubro, na série livre de influências sazonais, chegando a 89,8 pontos — o maior nível desde dezembro de 2024. Apesar de ser a terceira alta consecutiva, Gouveia prevê possibilidade de reversão no curto prazo.

"A melhora na confiança está relacionada ao mercado de trabalho aquecido e à inflação em desaceleração, o que melhora a percepção do consumidor tanto para o presente quanto para o futuro. No entanto, esse cenário pode não se sustentar por muitos meses, especialmente diante do alto endividamento, inadimplência e juros elevados", explica.

Em novembro, o Índice de Situação Atual (ISA) da Confiança do Consumidor avançou 1,8 ponto, atingindo 84,8 pontos, o maior patamar desde dezembro de 2014. Já o Índice de Expectativas (IE) cresceu 1,0 ponto, chegando a 93,8 pontos.

Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que a proporção de famílias brasileiras com dívidas subiu para 79,5% em outubro, o maior nível desde o início da série histórica, em 2010. A fatia de famílias inadimplentes manteve-se em 30,5% em outubro, repetindo o recorde de setembro. Além disso, 13,2% das famílias declararam não ter condições de quitar dívidas em atraso, permanecendo inadimplentes, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).

Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, o bom desempenho do mercado de trabalho não tem sido suficiente para conter o avanço da inadimplência, devido aos juros elevados. Como consequência, o comércio varejista já percebe desaceleração nas vendas. A CNC projeta que a proporção de famílias endividadas aumente 3,3 pontos percentuais até o fim deste ano em relação ao encerramento de 2024, enquanto a inadimplência deve subir 1,5 ponto percentual.