ANÁLISE INTERNACIONAL

Ações de Washington na Venezuela vão deixar América Latina mais dividida?

Especialista avalia que intervenção dos EUA pode aprofundar polarização ideológica entre países latino-americanos

Por Sputinik Brasil Publicado em 06/01/2026 às 13:07
Operação dos EUA na Venezuela aumenta tensão e pode aprofundar divisões na América Latina. © AP Photo / Ariana Cubillos

A recente operação dos Estados Unidos na Venezuela, culminando com a apreensão do presidente Nicolás Maduro, tende a acirrar as divergências ideológicas entre os líderes da América Latina, segundo análise de Kurt Weyland, professor da Universidade do Texas, em Austin.

De acordo com Weyland, a situação ambígua criada após o ataque das Forças Armadas norte-americanas em Caracas levará os líderes regionais a adotarem diferentes posturas, comprometendo a unidade política e ideológica do continente.

"Em geral, a situação na Venezuela aumentará a polarização ideológica entre os líderes da América Latina", afirmou o especialista.

Weyland observa que presidentes latino-americanos de esquerda ficarão especialmente preocupados com o ocorrido em Caracas. Já a reação de líderes como Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Gustavo Petro, da Colômbia, deve variar.

"Lula, seguindo a diplomacia cautelosa do Brasil, evitará provocar um conflito aberto com Trump, especialmente após recentes negociações que resultaram na retirada de tarifas punitivas. Petro, por sua vez, pode buscar maior polarização e adotar retórica dura antes das eleições na Colômbia", explica Weyland.

Sobre o cenário interno venezuelano, o analista acredita que a presidente interina, Delcy Rodríguez, poderá ser pressionada a cooperar com o governo Trump, inclusive concedendo mais acesso ao petróleo venezuelano aos EUA.

O professor avalia ainda que o governo interino tentará ganhar tempo, sinalizando disposição ao diálogo com os Estados Unidos, na expectativa de que a atenção da Casa Branca se volte para outros temas, permitindo um eventual retorno ao antigo estilo de gestão.

Ao mesmo tempo, Weyland prevê que os partidários do ex-presidente Hugo Chávez, de quem Maduro é sucessor, devem aceitar a nova configuração política, apesar de eventuais manifestações simbólicas.

"Os chavistas na Venezuela provavelmente realizarão protestos simbólicos contra a destituição de Maduro — para 'marcar posição' e demonstrar teatralmente seu compromisso com a causa. No fim, se minha análise estiver correta, eles acabarão aceitando a situação atual", conclui Weyland.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia manifestou solidariedade ao povo venezuelano, solicitando a libertação de Maduro e sua esposa, além de pedir que se evite uma escalada da crise.

Pequim também se posicionou, exigindo a libertação imediata do presidente venezuelano e destacando que as ações dos EUA violam o direito internacional. O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte igualmente criticou a postura norte-americana.

Na Organização das Nações Unidas (ONU), o representante permanente da Rússia, Vasily Nebenzya, classificou a apreensão de Maduro como "ato de banditismo", afirmando não haver justificativa para o que chamou de crime cínico cometido pelos EUA em Caracas.