'Não queremos ser americanos', diz Groenlândia em resposta a Trump
Lideranças políticas e população local rejeitam pressão dos EUA por controle do território autônomo dinamarquês
Os partidos políticos da Groenlândia reafirmaram sua autonomia e rejeitaram a possibilidade de subordinação a Washington após o presidente dos EUA, Donald Trump, sugerir novamente o uso da força para tomar o território dinamarquês, rico em minerais, gerando apreensão internacional.
"Não queremos ser americanos, não queremos ser dinamarqueses, queremos ser groenlandeses", declararam líderes dos cinco partidos representados no Parlamento da Groenlândia em comunicado conjunto. "O futuro da Groenlândia deve ser decidido pelos groenlandeses."
Na sexta-feira, 9, Trump afirmou que Washington iria "fazer algo sobre a Groenlândia por bem ou por mal".
Americano? Não
O comunicado dos partidos reforçou: "Nenhum outro país pode interferir nisso. Devemos decidir o futuro do nosso país nós mesmos – sem pressão para uma decisão precipitada, sem procrastinação e sem interferência de outros países".
Julius Nielsen, pescador de 48 anos na capital Nuuk, declarou à AFP: "Americano, não! Fomos uma colônia por tantos anos. Não estamos prontos para ser uma colônia novamente, ser colonizados".
Colônia dinamarquesa até 1953, a Groenlândia conquistou autonomia em 1979 e avalia, no futuro, afrouxar ainda mais os laços com a Dinamarca.
Muitos groenlandeses, no entanto, permanecem cautelosos quanto à independência total. "Eu realmente gosto da ideia de sermos independentes, mas acho que deveríamos esperar. Não por agora. Não hoje", opinou Pitsi Mari, que trabalha em telecomunicações, à AFP.
A coalizão atualmente no poder não defende uma independência imediata. Já o partido de oposição Naleraq, que obteve 24,5% dos votos nas eleições legislativas de 2025, quer acelerar o processo, mas também assinou a declaração conjunta.
"É hora de começarmos a preparar para a independência pela qual lutamos durante tantos anos", afirmou o deputado Juno Berthelsen em uma postagem no Facebook.
Nesta quinta-feira, 8, a agência Reuters revelou que autoridades dos EUA avaliam oferecer até US$ 100 mil por habitante da Groenlândia para convencê-los a se separar da Dinamarca e anexar a ilha aos Estados Unidos.
Segundo a agência, embora o valor exato e a logística de pagamento não estejam claros, autoridades americanas, incluindo assessores da Casa Branca, discutiram cifras que variam de US$ 10 mil a US$ 100 mil por pessoa. Autoridades em Copenhague e Nuuk já afirmaram que o território não está à venda.
A Dinamarca e outros aliados europeus manifestaram surpresa diante das ameaças de Trump de assumir o controle da Groenlândia, onde os Estados Unidos já mantêm uma base militar estratégica.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, declarou na segunda-feira, 5, que uma tomada de poder pelos EUA na Groenlândia equivaleria ao fim da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Trump minimizou as preocupações da Dinamarca, um aliado que participou da invasão do Iraque em 2003 ao lado dos EUA. "Sou fã da Dinamarca, também, tenho que dizer. E você sabe, eles foram muito simpáticos comigo", disse Trump. "Mas sabe, o fato de eles terem um barco que aterrissou lá há 500 anos não significa que eles possuam a terra."
O secretário de Estado, Marco Rubio, deverá se reunir na próxima semana com o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca e representantes da Groenlândia.