De obrigação à aspiração: como dinheiro enviado por parentes à África molda sonhos e deveres
Remessas financeiras de africanos no exterior superam ajuda internacional e impactam famílias, misturando orgulho e pressão.
Para milhões de africanos, o dia começa com a expectativa de um "alerta de crédito" — uma notificação de dinheiro enviado por parentes que vivem no exterior ou em grandes cidades.
Essas transferências, frequentemente chamadas de "imposto negro", representam um dos mais significativos fluxos financeiros para o continente africano. Elas transformam vidas, trazendo tanto orgulho quanto uma pressão intensa sobre quem envia e quem recebe.
Escala do apoio
Segundo relatório do Banco Africano de Desenvolvimento de 2022, africanos que vivem fora do continente enviaram para casa mais de US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 529 bilhões) — valor superior à soma da ajuda externa ou dos investimentos recebidos pela África. Dentro dos próprios países, o apoio financeiro também é vital: pesquisas mostram que, em Lagos, Nigéria, trabalhadores assalariados destinam em média 20% de sua renda ao sustento familiar.
Fardo e símbolo: transferência é uma mistura complexa de obrigação e aspiração
"Você se sente na obrigação de retribuir porque conhece a situação", relata um queniano residente no Reino Unido, responsável pelo sustento de sua família extensa.
Para um analista de dados do Zimbábue, mudar-se para o exterior foi uma estratégia clara para garantir a aposentadoria da avó e construir um patrimônio: "para que meu filho [...] possa recomeçar sem a preocupação de onde virá sua próxima refeição".
A pressão é concreta. Estudos no Quênia apontam que o envio de remessas pode limitar o crescimento de pequenos negócios, enquanto na África do Sul, muitos vivem com o temor constante de "perder tudo".
Mais do que dinheiro
O sistema de apoio familiar se mostra resiliente. Mesmo novas taxas sobre remessas, como o recente imposto de 1% nos EUA, são encaradas apenas como mais um desafio. Como ressalta um estudante nigeriano, quando o dinheiro é destinado a "comida e remédios [...] você realmente não tem escolha".