TECNOLOGIA

Tendência 2026: IA elimina digitação manual e redefine a eficiência no comex

Logtechs brasileiras aceleram o uso de IA para transformar documentos em dados, reduzir erros, ganhar eficiência e elevar o compliance nas operações globais

Por Rodolfo Milone Publicado em 27/01/2026 às 09:21

A Inteligência Documental baseada em IA desponta como uma das principais tendências do comércio exterior para 2026 ao automatizar a leitura, validação e preenchimento de documentos como Bill of Lading (BL), Invoices, Packing Lists e declarações aduaneiras. No Brasil, onde até 40% das rotinas de comex ainda dependem de tarefas manuais, logtechs e operadores logísticos passam a adotar essas soluções para reduzir erros, acelerar processos e preparar suas operações para um ambiente cada vez mais digital, integrado e regulado.

De acordo com Alexandre Pimenta, CEO da Asia Shipping, multinacional brasileira e maior integradora logística da América Latina, durante décadas, o comex operou apoiado em fluxos intensivos de digitação, conferências manuais e múltiplas etapas de validação. Na prática, analistas dedicam grande parte do tempo a inserir dados de embarque, revisar faturas, extrair informações de manifestos e preencher declarações como a Declaração Única de Exportação (DU-E) e a Declaração de Importação (DI).

“Estamos falando de um setor altamente complexo e regulado, com atividades repetitivas que exigem alto nível de atenção e impactam diretamente a produtividade, os prazos e o compliance das operações. Falhas podem gerar atrasos, custos adicionais e desafios regulatórios”, afirma Pimenta. “Por isso, manter processos críticos excessivamente dependentes de digitação manual acaba reduzindo eficiência e dificultando ganhos de escala e previsibilidade operacional”, diz.

Inteligência além do OCR

A nova geração de Inteligência Documental vai além do OCR (Optical Character Recognition ou Reconhecimento Óptico de Caracteres), tecnologia tradicional que apenas converte imagens em texto. As soluções mais avançadas combinam OCR com modelos de inteligência artificial capazes de compreender contexto, cruzar dados entre diferentes documentos e identificar inconsistências automaticamente.

Na prática, o sistema recebe arquivos em PDF ou imagem, extrai as informações relevantes, valida dados entre BL, Invoice e Packing List, identifica anomalias — como

divergências de peso, valores, moedas ou classificação fiscal — e gera rascunhos de declarações aduaneiras prontos para revisão humana.

“O diferencial não está apenas em ler o documento, mas em entender o papel daquele dado dentro do processo de comércio exterior. Isso reduz variabilidade, melhora a qualidade da informação e fortalece o controle operacional”, explica Pimenta.

Ganhos operacionais e retorno rápido

Projetos-piloto e aplicações em ambiente real indicam que a digitalização inteligente de documentos pode reduzir o tempo de processamento entre 50% e 70%, além de diminuir erros operacionais em mais de 50%. Em termos financeiros, o retorno sobre o investimento pode chegar a 200% ou até 300% no primeiro ano, considerando a redução de retrabalho, maior fluidez aduaneira e melhor aproveitamento das equipes.

“O analista deixa de concentrar energia em tarefas operacionais e passa a atuar na validação de exceções, na análise de risco e na tomada de decisão. Isso tem impacto direto na eficiência da operação e na qualidade do serviço prestado”, destaca o executivo.

Aplicações práticas já em curso no Brasil

No Brasil, soluções de Inteligência Documental já demonstram ganhos relevantes em operações reais. Um exemplo é o uso de plataformas especializadas que automatizam grande parte da gestão documental, convertendo documentos não estruturados em dados organizados e integráveis a sistemas de comex e ERPs.

Nesse contexto, a Asia Shipping tem avançado na adoção de tecnologias desenvolvidas pela DATI, empresa do grupo, como o Smart Reader, módulo de Inteligência Documental que digitaliza, confere e compara documentos do comércio exterior. A solução elimina 87% da necessidade de digitação manual, substituindo horas desta tarefa por segundos de processamento de invoices, packings, BLs e documentos financeiros, entre outros, usando inteligência artificial.

“A experiência prática mostra que a tecnologia já atingiu um nível de maturidade compatível com a complexidade do comex. O foco agora é integrar essas soluções de forma consistente à operação e garantir que elas continuem gerando ganhos em eficiência e controle”, avalia Pimenta.

Preparação para um comex mais integrado

A consolidação da Inteligência Documental acompanha a evolução do Portal Único, a digitalização dos órgãos anuentes e a integração crescente entre sistemas privados e governamentais. Nesse cenário, transformar documentos não estruturados em dados confiáveis, auditáveis e rastreáveis deixa de ser diferencial e passa a ser um requisito competitivo.

“O futuro do comércio exterior será cada vez mais orientado por dados. Automatizar a base documental é um passo essencial para sustentar crescimento, compliance e competitividade em um ambiente global mais exigente”, conclui Alexandre Pimenta.