MERCADO FINANCEIRO

Dólar recua para R$ 5,20 e atinge menor patamar desde maio

Moeda americana cai 1,38% diante de fluxo estrangeiro, cenário externo e expectativas sobre juros no Brasil e nos EUA

Publicado em 27/01/2026 às 18:38
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O dólar fechou em forte queda nesta terça-feira (27), atingindo o menor valor desde o final de maio de 2024. O movimento foi impulsionado pela desvalorização global da moeda americana e pelo ingresso de recursos estrangeiros na bolsa brasileira, em um dia de alta superior a 2% nas cotações do petróleo.

Segundo operadores, a redução da exposição a ativos americanos, diante das incertezas provocadas pela política econômica e comercial de Donald Trump, segue beneficiando moedas e bolsas de mercados emergentes. O impasse orçamentário nos Estados Unidos, agravado por turbulências na política migratória, reacende o temor de uma nova paralisação do governo americano (shutdown).

No cenário doméstico, o IPCA-15 de janeiro abaixo das expectativas reforçou as apostas em cortes na taxa Selic a partir de março. A expectativa em torno da chamada Super Quarta — com manutenção dos juros no Brasil e nos EUA — contribuiu para a valorização do real, em razão do amplo diferencial de juros que favorece operações de carry trade. Além disso, o apetite por ações brasileiras segue elevado: o saldo de investimento estrangeiro na B3 já supera R$ 15,7 bilhões.

Durante o dia, o dólar operou em queda consistente, chegando a romper momentaneamente o piso de R$ 5,20 na última hora de negociações. A moeda encerrou o pregão com baixa de 1,38%, cotada a R$ 5,2067 — menor fechamento desde 28 de maio de 2024 (R$ 5,1540). Em janeiro, o dólar acumula queda de 5,14%, após alta de 2,89% em dezembro. Em 2025, a desvalorização atinge 11,18%, a maior baixa anual desde 2016.

“Obviamente, o real é favorecido pela migração de recursos dos Estados Unidos para mercados emergentes, diante do desgaste da política econômica americana. Além disso, há expectativa de que o Banco Central seja comedido nos cortes de juros, previstos para começar em março”, avalia Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora.

No exterior, o índice DXY — que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes — caiu ao menor nível desde fevereiro de 2022. Euro e libra fecharam no maior patamar em relação ao dólar desde 2021. O iene se valorizou após declarações da ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, sobre possíveis intervenções no câmbio e diálogo próximo com os EUA.

O Wall Street Journal informou que o Federal Reserve de Nova York fez contatos com potenciais contrapartes comerciais na última sexta-feira para checagem de taxas de câmbio, levantando especulações sobre possíveis intervenções conjuntas entre EUA e Japão para apoiar o iene.

À tarde, Donald Trump voltou a defender cortes nos juros americanos e afirmou que o dólar está em “ótimo valor”. O mercado praticamente dá como certa a manutenção da taxa básica dos EUA, entre 3,50% e 3,75% ao ano, após três reduções consecutivas de 25 pontos-base. O Federal Reserve está sob pressão do presidente americano, que pode indicar um novo dirigente para o banco central após o término do mandato de Jerome Powell em maio.

“A equipe econômica de Donald Trump demonstra compreender os efeitos de um dólar mais fraco sobre a competitividade externa, o que tem contribuído para a desvalorização global da moeda americana”, afirma André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica. Ele destaca que a queda do índice DXY nos últimos 12 meses é a mais acentuada desde 2011. “O real se beneficia desse cenário e do fluxo externo positivo.”