'Petróleo do século XXI': qual a estratégia do Brasil para o uso das terras raras?
Com 23% das reservas mundiais, Brasil busca agregar valor e fortalecer soberania sobre minerais essenciais para a tecnologia global.
A União Europeia intensifica parcerias estratégicas para reduzir a dependência externa e garantir o acesso a insumos como níquel, cobre e terras raras. Nesse cenário, o Brasil assume papel central, concentrando cerca de 23% das reservas mundiais desses minerais, ficando atrás apenas da China.
Essas riquezas, frequentemente chamadas de "petróleo do século XXI", tornaram-se ativos geopolíticos disputados por grandes potências globais. Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil alertam que, sem uma política industrial robusta e diplomacia ativa, o país corre o risco de repetir antigos ciclos de exploração.
Segundo Ana Cláudia Ruy Cardia, especialista no tema, a melhor estratégia para o Brasil diante da cobiça internacional é fortalecer a aplicação prática da Estratégia Nacional de Terras Raras (ENTR). Aprovada em 2023, a ENTR foca no desenvolvimento tecnológico, estímulo à inovação e ampliação da agregação de valor aos minerais estratégicos, que ainda são, em sua maioria, exportados in natura para países como China e Estados Unidos.
"Temos hoje uma das maiores reservas minerais do mundo (ainda sem conhecimento total do potencial existente) e a capacidade de desenvolver expertise orientada à inovação", destaca Cardia.
Para a professora Flávia Loss, o Brasil deve reforçar sua atuação diplomática e adotar um discurso consistente de defesa da soberania, tanto nacional quanto regional. Ela defende a articulação com outros países da América Latina para evitar que a região seja pressionada a ceder ativos estratégicos a potências estrangeiras.
"Precisamos mudar a forma como enxergamos os recursos naturais no Brasil e na América Latina", afirma Loss. "Ou seja, pensar nesses recursos não apenas como commodities para extração, mas como base para produtos de valor agregado e desenvolvimento tecnológico."