Violência contra crianças e adolescentes persiste na América Latina e no Caribe
Novo relatório da OPAS/OMS e UNICEF alerta sobre o impacto da violência desde a primeira infância para romper o ciclo da violência e garantir ambientes seguros. Documento destaca o Brasil como exemplo de políticas e iniciativas.
Cidade do Panamá/Washington, D.C., 28 de janeiro de 2026 – Na América Latina e no Caribe, a violência continua sendo uma grave ameaça à vida, à saúde e ao bem-estar de milhões de crianças, adolescentes e jovens, alertam a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em uma nova publicação conjunta, Violência contra crianças e adolescentes na América Latina e no Caribe: novos dados e soluções.
Segundo o relatório, a consequência mais grave da violência é a morte de milhares de crianças, adolescentes e jovens. Entre 2015 e 2022, 53.318 meninos e meninas foram vítimas de homicídio na região. Os dados mais recentes disponíveis, com foco em adolescentes de 15 a 17 anos, mostram tendências discrepantes entre os sexos. Entre 2021 e 2022, a taxa de homicídios entre adolescentes do sexo masculino diminuiu de 17,63 para 10,68 mortes a cada 100 mil na América Latina e Caribe, ainda que tenha se mantido em níveis altos. No mesmo período, a taxa entre adolescentes do sexo feminino duplicou, passando de 2,13 para 5,1 mortes a cada 100 mil.
Os homicídios ocorrem em um contexto de aumento da violência armada em algumas áreas da região, associada ao crime organizado, ao fácil acesso a armas de fogo, às desigualdades sociais e a normas de gênero nocivas, que expõem de forma crescente adolescentes a situações de violência letal.
As diferentes formas de violência estão interligadas e, em muitos casos, se intensificam ao longo do tempo. O relatório destaca como a violência está presente desde idades muito precoces. Na região, 6 em cada 10 crianças e adolescentes de até 14 anos sofrem algum tipo de disciplina violenta em casa, enquanto um em cada quatro adolescentes de 13 a 17 anos vivencia situações de bullying escolar. Quase uma em cada cinco mulheres na América Latina e no Caribe relata ter sofrido violência sexual antes dos 18 anos. Cada vez mais, a violência se manifesta em ambientes digitais, embora os dados disponíveis ainda sejam limitados.
“Todos os dias, milhões de crianças e adolescentes na América Latina e no Caribe vivem expostos à violência — em casa, na escola e em comunidades. Múltiplos locais e situações na região apresentam riscos e perigos reais para meninos e meninas”, afirma Roberto Benes, Diretor Regional do UNICEF para a América Latina e o Caribe. “Sabemos como acabar com a violência. Na América Latina e no Caribe, são necessárias políticas públicas sólidas e sustentadas que previnam e enfrentem a violência em todas as suas formas, para que cada criança possa crescer em um ambiente seguro.”
“A violência tem um impacto profundo e duradouro na saúde física e mental de crianças e adolescentes e viola seu direito de crescer em ambientes seguros, no lar, na escola e na comunidade”, afirma o doutor Jarbas Barbosa, diretor da OPAS. “Os serviços de saúde desempenham um papel fundamental na prevenção e na resposta: quando os profissionais de saúde identificam precocemente pessoas e grupos em risco e oferecem apoio oportuno e de qualidade, podem fazer uma diferença real para os sobreviventes, suas famílias e comunidades".
Além de descrever a magnitude do problema, o relatório destaca soluções baseadas em evidências que podem prevenir a violência e mitigar seus custos.
Experiência brasileira
O relatório destaca o Brasil como exemplo de políticas e iniciativas capazes de prevenir a violência contra crianças e adolescentes. Entre elas está o programa nacional Primeira Infância Melhor, do Rio Grande do Sul, que atua com visitas domiciliares a famílias com crianças de 0 a 5 anos, oferecendo orientação sobre saúde, cuidado e desenvolvimento. Segundo o relatório, crianças que participaram da iniciativa apresentaram menor envolvimento em comportamentos violentos no futuro: aquelas entre 10 e 11 anos foram 5% menos propensas a praticar bullying ou furtos e 10% menos propensas a agredir ou ameaçar outras pessoas.
O Brasil também é citado por avanços no sistema de justiça com a Lei da Escuta Protegida (Lei nº 13.431/2017), que garante que crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência sejam ouvidos em espaços seguros e por profissionais capacitados, evitando a revitimização. Iniciativas como a Agenda Cidade UNICEF, desenvolvida em oito capitais entre 2022 e 2024, e o Selo UNICEF, presente em mais de 2.200 municípios das regiões Norte e Nordeste, também são apontadas como estratégias para fortalecer a proteção, estimular o protagonismo adolescente e ampliar o registro de casos de violência.
A publicação também cita a experiência do programa Olho Vivo, em São Paulo, que promoveu o uso de câmeras corporais por policiais, entre os anos de 2020 e 2022. Nesse período, nas áreas onde mais da metade da força de segurança utilizava os equipamentos, as mortes durante operações policiais caíram 67%, com redução ainda maior entre meninos negros de 15 a 19 anos (queda de 80%).
O programa, no entanto, passou por mudanças nos protocolos de uso das câmeras corporais e em outros mecanismos. O estudo As câmeras corporais na Polícia Militar do Estado de São Paulo (2ª edição), lançado em abril de 2025, revela retrocessos após a flexibilização na política do uso de câmeras: entre 2022 e 2024, o estado de São Paulo registrou um aumento de 120% nas mortes de crianças e adolescentes decorrentes de intervenções policiais.
Recomendações
Para avançar na agenda e pôr fim à violência em todas as suas formas, a OPAS e o UNICEF pedem que governos da região fortaleçam e façam cumprir as leis de proteção à infância, garantam o controle efetivo das armas de fogo, capacitem policiais, professores e profissionais das áreas social e de saúde, apoiem pais e cuidadores em práticas de cuidado baseadas no respeito, invistam em ambientes de aprendizagem seguros e ampliem os serviços de resposta, de modo a assegurar que todas as crianças e adolescentes cresçam protegidos, tenham acesso à justiça e vivam vidas saudáveis, livres de violência.
O relatório foi validado durante uma consulta ministerial regional realizada nos dias 23 e 24 de outubro de 2025, que reuniu mais de 300 participantes de toda a região, incluindo ministros e funcionários públicos dos setores de saúde, educação, justiça e proteção à infância, além de representantes da sociedade civil, lideranças juvenis e parceiros internacionais, com o objetivo de acordar ações concretas para construir ambientes mais seguros para crianças e adolescentes.
Acesse o relatório Violência contra crianças e adolescentes na América Latina e no Caribe: novos dados e soluções: link