Acordo militar entre Grécia, Chipre e Israel busca conter avanço turco, avalia especialista
Parceria trilateral visa fortalecer alianças estratégicas diante da crescente influência da Turquia na região.
Para Grécia e Chipre, aliar-se a Israel representa um risco menor do que enfrentar uma possível recolonização turca, segundo análise de especialista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.
Em dezembro de 2025, Israel, Grécia e Chipre formalizaram um plano trilateral de cooperação militar, que inclui diálogos estratégicos, exercícios e treinamentos conjuntos. O acordo, considerado improvável até pouco tempo atrás, surge em meio a disputas por energia e segurança no Mediterrâneo Oriental, região que acompanha atentamente o fortalecimento geopolítico da Turquia.
Dominique Marques, professora de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, os fatores que motivam essa aproximação.
Desde a descoberta, nos anos 2000, de extensas reservas de gás natural, a Turquia intensificou seu projeto de soberania energética. Com avanços nesse campo, Ancara consolida sua posição global, marcada pelas cicatrizes deixadas após a dissolução do Império Otomano.
"Todo aquele peso, aquela potência e, de repente, o império se esfacela. Reduzem o território da Turquia e esse novo país que fica submetido aos interesses do Ocidente, enquanto tenta fazer parte do bloco europeu. Aí você tem essa Turquia que está alinhada com o Ocidente, que não sabe muito como agir."
Foi nesse contexto de retomada da soberania que o presidente Recep Tayyip Erdogan ganhou força como voz contrária à ocidentalização da Turquia, política implementada por Mustafa Kemal (1923-1938). Erdogan passou a posicionar navios de guerra para escoltar perfurações de gás no Mediterrâneo, alimentando um clima de insegurança regional.
Grécia e Chipre, por sua vez, demonstram preocupação diante da possibilidade de influência turca, relembrando o passado sob domínio otomano. Ambos conquistaram a independência com apoio britânico, em um contexto de disputa por influência entre Ocidente e Oriente.
O histórico de tensão inclui o episódio de 1974, quando tropas turcas desembarcaram no Chipre após um golpe de Estado apoiado pela Grécia.
"E aí a Turquia invade dizendo assim: 'Olha, como é que vão ficar os interesses dos turcos cipriotas?'"
A parceria trilateral com Israel
Nesse cenário, a aliança com Israel ganha relevância. Apesar de a Grécia integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o Chipre estar sob influência grega, a Turquia também faz parte da aliança e detém peso significativo dentro do bloco.
"Como eles não podem contar somente com a OTAN, eles pensam assim: 'Eu vou pegar uma parceria que nesse momento aqui está super contra a Turquia, mesmo que não seja uma das maiores forças militares'."
Segundo a analista, Israel busca o acordo devido ao isolamento geopolítico gerado por suas ações em relação à Palestina. "Por mais que Benjamin Netanyahu [premiê israelense] pareça que não está nem aí, Israel está ficando isolado."
Para Grécia e Chipre, a parceria com Israel representa um risco calculado, preferível ao avanço da influência turca.
"Não dominados, assim, de ter uma invasão e a Turquia, de fato, ocupar esses territórios, porque não vai acontecer. Mas em termos de eles perderem toda a capacidade de crescimento com essas explorações de gás da Turquia."
Por Sputnik Brasil