CRISE NO CARIBE

Pressão regional dos EUA faz turismo em Cuba despencar

Com sanções mais rígidas e crise energética, número de visitantes cai quase 70% desde 2018 e agrava situação econômica da ilha

Publicado em 02/02/2026 às 08:30
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

É quase meio-dia em Havana quando um grupo de turistas desembarca de um pequeno ônibus e se dirige apressadamente a uma fileira de carros clássicos reluzentes, câmeras em punho. Próximos dali, motoristas se levantam na esperança de conseguir o primeiro cliente do dia. No entanto, os turistas tiram algumas selfies rápidas e logo partem.

O turismo em Cuba enfrenta uma queda vertiginosa justamente quando a ilha mais precisa dessa fonte de renda. O número de visitantes estrangeiros despencou quase 70% desde 2018. Por quase duas décadas, um fluxo constante de turistas impulsionou a economia local, até que a pandemia de covid-19, os recorrentes apagões e o endurecimento das sanções dos Estados Unidos mudaram o cenário.

Atualmente, os cubanos que dependem do turismo estão entre os mais afetados, enquanto especialistas alertam para o risco de uma crise econômica ainda mais grave após a interrupção dos envios de petróleo da Venezuela.

Em mais um revés, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, anunciou na semana passada a suspensão temporária dos envios de petróleo para Cuba.

A situação se mostra especialmente difícil para ambulantes como Rosbel Figueredo Ricardo, de 30 anos, que vende o tradicional "chivirico", uma massa frita crocante polvilhada com açúcar. Antes, ele circulava com 150 pacotes por dia e vendia tudo até o fim da tarde.

Hoje, Rosbel sai às ruas com apenas 50 pacotes e, em alguns dias, não vende nenhum. "Sou técnico em mecânica industrial de nível médio, e veja minha situação", lamenta ele, que sustenta a companheira, três filhos e aguarda a chegada do quarto bebê.

Em uma tarde recente, Figueredo caminhou até a embaixada da Espanha, na esperança de que alguns dos muitos cubanos que enfrentam filas diárias em busca de visto para deixar a ilha comprassem seus chiviricos.

Queda brutal

Durante décadas, o turismo gerou até US$ 3 bilhões anuais para Cuba. Turistas faziam filas para fotografar os carros antigos, percorriam o famoso calçadão Malecón e lotavam restaurantes da capital.

O fluxo constante de visitantes gerava empregos e estimulava a abertura de centenas de pequenos negócios.

Hoje, porém, o Malecón é frequentado principalmente por casais cubanos ou pescadores em busca de alimento, enquanto restaurantes à beira-mar permanecem vazios.

De janeiro a novembro de 2025, cerca de 1,6 milhão de turistas visitaram Cuba — número muito inferior aos 4,8 milhões de 2018 e aos 4,2 milhões registrados em 2019, antes da pandemia.

Muitos cubanos temem que o aumento das tensões entre Washington e Havana, os cortes no fornecimento de água e energia e o acúmulo de lixo nas áreas turísticas estejam afastando os visitantes.

A queda acentuada no turismo é ainda mais dolorosa porque as sanções dos EUA privaram Cuba de quase US$ 8 bilhões em receitas entre março de 2024 e fevereiro de 2025, uma perda quase 50% maior em relação ao período anterior, segundo dados oficiais.