CENÁRIO INTERNACIONAL

Mercadante alerta para avanço de relações autoritárias e unilaterais, com destaque aos EUA

Presidente do BNDES defende fortalecimento do multilateralismo e alianças frente à instabilidade global

Publicado em 03/02/2026 às 17:59
Aloizio Mercadante Pedro França/Agência Senado

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou nesta terça-feira, 3, que o mundo atravessa um período marcado pela corrosão do multilateralismo e pelo crescimento de práticas autoritárias nas relações internacionais, especialmente envolvendo os Estados Unidos.

“Estamos vivendo um momento de erosão do multilateralismo, de ruptura, e de uma transição muito acelerada a um cenário de mais instabilidade e de relações unilaterais e autoritárias, especialmente em relação aos Estados Unidos”, declarou Mercadante durante o seminário internacional “Desafios para o Desenvolvimento Sustentável da América Latina”, realizado na sede do BNDES, no Rio de Janeiro.

Mercadante citou episódios como a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e a prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, classificando-os como violações claras das “regras básicas da soberania e do direito internacional”. O dirigente também mencionou ameaças do ex-presidente Donald Trump de anexar territórios da Groenlândia, o retorno do negacionismo climático com o abandono do Acordo de Paris, o enfraquecimento de instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e ações de repressão violenta a imigrantes.

“Estamos diante de grandes desafios e precisamos agir com clareza para não agravar esse cenário, buscando alianças sólidas e enfrentando as adversidades com coragem, firmeza e bom senso”, ressaltou Mercadante.

Para o presidente do BNDES, cabe aos países do Sul Global liderar a reforma, modernização e reconstrução dos organismos multilaterais, já que, segundo ele, esse movimento não será protagonizado pelas nações do Norte.

“A ONU e essas instituições multilaterais perderam a capacidade de agir e legitimidade. Já havia um problema, e a resposta veio por meio de rupturas que estão em curso”, afirmou. “Podemos negociar muitas coisas na vida, mas valores e princípios não se negociam. Eles servem como bússola mesmo nos cenários mais adversos. Precisamos reafirmar esses valores, sendo o multilateralismo um dos essenciais.”

Mercadante destacou ainda que o comércio com regras e o respeito ao direito internacional são conquistas civilizatórias que não podem retroceder. “Devemos defender, reformar e atualizar as instituições multilaterais. O multilateralismo é fundamental para os países do Sul Global”, completou.

Durante o seminário, José Manuel Salazar-Xirinachs, secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), também apontou os tarifaços do governo Trump e outras intervenções como desafios adicionais para a região.

Josep Borrell, presidente do Barcelona Centre for International Affairs (CIDOB), reforçou: “Os problemas locais, cada um tem que resolver os seus. E os problemas globais têm que ser resolvidos globalmente. E a solução passa por cooperação”.