CRISE AMBIENTAL

Meio ambiente: fluxo global de recursos amplia riscos climáticos e econômicos

Relatório da ONU aponta que investimentos em degradação ambiental superam em 30 vezes os destinados à proteção da natureza, afetando setores estratégicos do Brasil.

Publicado em 04/02/2026 às 08:19
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Para cada US$ 1 investido mundialmente na proteção da natureza, cerca de US$ 30 são direcionados a atividades que promovem sua degradação. Esse desequilíbrio intensifica a crise climática e impacta a economia global, com efeitos diretos sobre setores essenciais do Brasil, como o agronegócio, ameaçando a competitividade nacional.

A análise é de Rogério Studart, conselheiro do HUB de Economia e Clima do iCS (Instituto Clima e Sociedade), com base no relatório 'State of Finance for Nature 2026', divulgado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Segundo o levantamento da ONU, em 2023, aproximadamente US$ 220 bilhões foram destinados globalmente a soluções baseadas na natureza, como conservação de ecossistemas, restauração ambiental e infraestrutura verde. Em contrapartida, cerca de US$ 7,3 trilhões financiaram atividades prejudiciais ao meio ambiente, incluindo a expansão de combustíveis fósseis, desmatamento, poluição e uso insustentável do solo — um montante mais de 30 vezes superior ao investido em proteção ambiental.

Deste total, cerca de US$ 4,9 trilhões partiram do setor privado, especialmente dos segmentos de energia, mineração, infraestrutura e indústria pesada. Já US$ 2,4 trilhões correspondem a subsídios públicos considerados ambientalmente prejudiciais, concentrados principalmente em combustíveis fósseis, agricultura e construção.

“O principal entrave ao financiamento climático não é a falta de soluções, mas a persistência do modelo econômico global baseado em combustíveis fósseis e desmatamento, que são altamente lucrativos e politicamente protegidos. Isso resulta em baixo investimento na transição para uma economia descarbonizada e sustentável, e ainda menos em preservação, regeneração e resiliência diante do aumento de eventos climáticos extremos. Essa situação é especialmente preocupante para o Brasil, que busca avançar na transição climática e precisa de investimentos em adaptação e resiliência”, afirmou Studart, que também é Senior Fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e consultor da ONU, agências multilaterais e governos em temas de macroeconomia, finanças internacionais e sustentabilidade.

“Sem uma intervenção decisiva do Estado para estimular a iniciativa privada — por meio de impostos, subsídios, crédito e políticas públicas — a transição verde não ocorrerá de forma espontânea. E tampouco haverá recursos suficientes para investir em preservação, regeneração e adaptação, essenciais para proteger um dos maiores patrimônios nacionais: a exuberante e rica natureza brasileira. Para o Brasil, manter esse modelo amplia riscos ambientais, econômicos e sociais, comprometendo o crescimento sustentável, a competitividade internacional e o próprio futuro do país”, conclui.