Taxas de juros longas sobem com possível aval de Lula a Mello no BC e risco fiscal
Movimento reflete temores sobre política fiscal e nomeação de Guilherme Mello para diretoria do Banco Central
A curva a termo apresentou ganho de inclinação no pregão desta quarta-feira, 4, ainda que a alta nos trechos mais longos não tenha ultrapassado 10 pontos-base em relação aos ajustes anteriores. Já a ponta curta manteve-se estável, com leve viés de baixa.
O comportamento mais pressionado dos DIs intermediários e de longo prazo foi influenciado pelo fortalecimento global do dólar, que reverteu a tendência negativa observada no início das negociações.
No cenário doméstico, agentes do mercado divergem sobre o principal fator para o aumento dos prêmios de risco: se foi a preocupação fiscal, após a aprovação de projeto de lei no Congresso que amplia a remuneração de servidores e cria cargos no Executivo, ou o desconforto em relação à possível nomeação de Guilherme Mello para a diretoria do Banco Central.
De acordo com notícia da Reuters, divulgada no fim da tarde de quinta-feira, o presidente Lula deve confirmar a indicação de Mello para a diretoria de Política Econômica, uma das mais relevantes da autarquia.
Após o encerramento do pregão, a Câmara aprovou um projeto de lei que cria 16,3 mil cargos no Ministério da Educação, 1.500 cargos no Ministério de Gestão e Inovação e institui um Instituto Federal em Patos (PB), com impacto orçamentário estimado em R$ 5,3 bilhões para 2026. Além disso, foi aprovado outro projeto que concede gratificações a servidores do Congresso, com valor estimado em cerca de R$ 800 milhões.
Enquanto investidores absorviam esses acontecimentos, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 passou de 12,687% no ajuste anterior para 12,75% no fechamento. O DI para janeiro de 2031 subiu de 13,079% para 13,15%. Já o contrato para janeiro de 2027 recuou de 13,418% para 13,405%, com apostas de redução de 0,50 ponto percentual na Selic em março ganhando força.
Um profissional de renda fixa de uma grande gestora, sob anonimato, avaliou que o impacto orçamentário do projeto dos servidores é "inexpressivo". Entretanto, o conjunto de notícias do dia — incluindo os ruídos fiscais, a possível nomeação de Mello, o ambiente externo desfavorável e ajustes técnicos após forte fechamento dos DIs em janeiro — justificaria a inclinação observada na curva.
"O mercado ainda não está confiante em um ciclo maior que 300 pontos-base de corte na Selic. Não há um gatilho imediato para ampliar esse movimento para 400 pontos-base, por exemplo. Assim, qualquer ruído pode provocar correção nas taxas de juros", afirmou o participante do mercado.
Gean Lima, gestor de portfólio da Connex Capital, considerou modestas as movimentações na curva de juros nesta quarta-feira. Para ele, tanto a preocupação fiscal quanto a confirmação da indicação do atual secretário de Política Econômica da Fazenda para a diretoria do BC influenciaram os preços.
"A diretoria para a qual Mello deve ser indicado é relevante, pois realiza pesquisas econômicas e análises fundamentais. Trata-se de um cargo com potencial de influenciar outras cadeiras na diretoria do BC", explicou Lima. Investidores demonstram receio devido à proximidade de Mello com o governo petista, o que poderia aumentar o risco de interferência do Executivo nas decisões da autoridade monetária, além de sua orientação econômica mais heterodoxa.
Outro profissional do mercado, que falou reservadamente à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, avaliou que o sinal expansionista vindo do Congresso teve peso maior na abertura dos DIs médios e longos. Ele destacou, porém, que a variação das taxas ficou dentro da volatilidade diária. "Com apenas 24 horas de retorno do Congresso após o recesso, já tivemos esse sinal", afirmou, referindo-se ao projeto aprovado na terça-feira com impacto no orçamento público.