GEOPOLÍTICA DOS RECURSOS MINERAIS

Com grandes reservas de terras raras, Brasil ganha relevância política global, afirma especialista

Segundo Maria Luiza Falcão Silva, país precisa assumir protagonismo internacional e investir em industrialização para agregar valor aos minerais estratégicos.

Por Sputnik Brasil Publicado em 07/02/2026 às 12:20
Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, ganhando destaque geopolítico e econômico. © AP Photo / Eraldo Peres

O Brasil, detentor do segundo maior volume de metais de terras raras do mundo, deve adotar posições mais firmes e ousadas no cenário internacional, defende a professora aposentada da Universidade de Brasília, Maria Luiza Falcão Silva.

Em artigo publicado no Brasil 247, a especialista argumenta que, diante da crescente importância das terras raras para a economia global, o Brasil precisa atuar como protagonista, em pé de igualdade com outras potências.

Falcão Silva destaca que, enquanto no século XX o petróleo era o fator decisivo nas disputas globais, atualmente minerais estratégicos como lítio, níquel, cobalto e grafite ganham cada vez mais relevância.

"Sem esses insumos não há baterias, semicondutores, inteligência artificial, armamentos sofisticados nem transição energética. Não há, portanto, soberania tecnológica", afirma a professora.

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas, o que representa aproximadamente um quarto do total mundial. A China lidera o ranking, com cerca de 44 milhões de toneladas — metade das reservas globais.

"Já os Estados Unidos aparecem muito atrás, com algo em torno de 1,9 milhão de toneladas, atrás inclusive da Índia e da Austrália", aponta Falcão Silva.

Para a especialista, esses números indicam que a liderança global tende a ser mais distribuída no futuro próximo e levantam a questão: por que o Brasil, mesmo com tantas reservas, ainda não se tornou uma potência mineral-industrial?

"Poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil nesta nova geoeconomia. Ser o segundo maior detentor de reservas muda nossa densidade estratégica", enfatiza.

Apesar do potencial, Falcão Silva ressalta que o país ainda não domina plenamente a capacidade de transformar esses recursos, permanecendo dependente de tecnologias estrangeiras, especialmente as chinesas.

"Minerais críticos não podem ser tratados como commodities tradicionais. O horizonte estratégico deve ser outro: refinar no Brasil, industrializar no Brasil, agregar valor no Brasil", defende.

A professora também destaca que o Brasil deve avançar na extração e transformação de terras raras de forma autônoma, contando com seus próprios esforços e evitando dependência de outros países.

Ela cita como exemplo o clube mineral promovido pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump, afirmando que aderir a esse grupo não é necessário para a estratégia nacional.

Para Falcão Silva, o caminho está em fortalecer parcerias com outros países produtores de recursos estratégicos, evitando padrões de subordinação e promovendo o reposicionamento internacional do Brasil.

A especialista conclui que as reservas brasileiras de terras raras representam uma oportunidade histórica para o país se destacar no cenário global.